"O poema me levará no tempo / Quando eu já não for / A habitação do tempo / E passarei sozinha / Entre as mãos de quem lê / - O poema alguém o dirá/ Às searas" - Sophia de Mello Breyner Andresen - Livro Sexto (1962)







Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Tantos sonhos p’ra sonhar

                                                                                                                                             Vladimir Guseva

Uma reprimenda? Um carinho?
Um sorriso?
O que lhes terá ficado
na memória?

Um girassol dourado
delícia para as abelhas
um poema envergonhado
ou o sol a tombar das telhas
sobre o girassol dourado
à espera das abelhas?

E a ave que voou da árvore
e veio pousar num conto meu.
Quem se lembra?
Quem já se esqueceu?

Deve haver outras coisas
que ficaram na memória:
as contas de dividir?
Essas não têm história
quem as não sabe, terá de as repetir.
É bom que cedo se tome
o  jeito ao repartir.
Quem as não sabe terá de as repetir.

O verbo aprender em todos os modos,
em todos os tempos,
o verbo criar, o verbo construir, o verbo amar...

Viagens de navegadores,
velhas lendas de encantar...
Rios, serras, mares e mapas
tantos sonhos p’ra sonhar.
Deve haver outras coisas
que ficaram por contar.
Rios, serras, mares e mapas
caminhos p’ra desvendar.

Em tantos dias felizes
a tarde repousa agora.
Há canções, risos distantes  
e as aves, de ramo em ramo,
são como alegres petizes
a debruar os instantes
de tantos dias felizes.


Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Da diferença

Ah! Eu devia admirar quem sabe responder
sem nunca ter de perguntar.
Pessoas resplandecentes
juízes a tempo inteiro
dos outros, que de si próprios
tudo bem, sempre certeiros.

Ai de quem se atreva à diferença
passa logo a condenado,
ameaça aos bons costumes.
E não há quem os convença
das normas que o outro assume.

Não confundem cores nem sons
pintam tudo sem matizes
que a “raça” é um dom
deles só... E de Ulisses!

Em torno de si, reunidos
méritos e dotes aos molhos.
Pena é que assim seja
à luz dos próprios olhos.

Não sonham nem a dormir.  
São corpo, Realidade!
Aos outros que assim não são
estranham tal veleidade.
A diferença é estorvo
para os donos da verdade.

Ah! Como gosto de quem gosta
de ser apenas quem é.
De quem, pisando chão de lodo,
alcança ficar de pé.




Domingo, 27 de Maio de 2012

Verso Vão



Onda de sol, verso de ouro,
perífrase vã. Extasiar-me,
antes, por esta fusão,
mistura de brilhos. Ou, ainda
mais íntima, a consciência
extensa como o céu, o corpo de tudo,
semelhança absoluta. Respirar
na quebra da onda. Na água,
uma braçada lenta
até ao limite de mim.
 
 
Fiama Hasse Pais Brandão

in "Três Rostos - Ecos"

Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Do reflexo das faces brancas e das faces negras

                                                                                        duy huynh


O poema nasceu assim banhado de uma sombra fria, no fio do aço e da denúncia. Poupem-no a censuras! É filho de uma terra mordida, semeada de tristezas, parindo a custo  códeas rapadas de pão. É filho de um tempo torpe e cru... Poupem-no a censuras!
Os homens carregam nos ombros os despojos de uma inocência em simulacro. Falta-lhes a grandeza da denúncia, a dignidade da verdade e da justiça.
Desamparados de céu e terra,  afundam-se até à raiz na água turva da sua própria contradição divididos entre a angústia de ter preço e a esperança da libertação.
O poema nasceu assim da asfixia do espelho, do reflexo das faces brancas e das faces negras do desnorteamento.
Poupem-no a censuras!

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Coisas de ontem e de sempre

                                                                                                              Jeannette Woitzik
    
Podia escrever-te uma carta de amor.
Fechava-a com um coração e prendia-a
à guita de um balão.

Depois ficava a vê-la voar
sobre a seara, sobre o mar
dias a fio, até ela te encontrar.

Uma carta de amor
Ridícula, como diria o poeta,
presa à cauda de um balão
repousa agora na tua mão


Então? Abre-la ou não?



Domingo, 20 de Maio de 2012

em vez disso...

Não sei que sobressaltos guarda
a alvura lisa de uma página por escrever.

Que solidões, que ausências? Que medos
que ventos, que tempestades
se ocultam no vazio de uma página?

Podia entrar nela de rompante, se quisesse.
Tenho a postos, dentro do peito,
um elmo, um escudo, uma espada
e uma revolta para libertar.

Em vez disso coloco no bico do lápis
uma rua sossegada de maio
duas crianças de bicicleta
a pacatez serena dos gatos
e o riso dos melros no interior dos arbustos.

Anulo, assim, o desassossego
branco da página e regresso às horas
iguais do dia, aqui...

Sábado, 19 de Maio de 2012

Para grandes e pequenos leitores

Trata-se de uma publicação recente da Trampolim Edições.
 Tive a oportunidade de a analisar e devo dizer que vem confirmar a já mais que confirmada excelência de um autor, João Pedro Mésseder e de uma ilustradora Manuela Bacelar, nomes de destaque no universo da literatura infanto-juvenil produzida no momento, em Portugal.
É uma coletânea que reune 30 poema ligados pela temática dos animais. Há os pequenos como a borboleta ou a libelinha, grandes como a zebra, o elefante, altos como a girafa, caseiros como o gato, chorões como o lagarto. Este criado por Mésseder vai ao encontro de outro - O Lagarto esta chorando, da autoria de Garcia Lorca, ". "O pato, pata aqui, pata acolá" do Vinicuis também não falta à festa.
 Cada poema vai revelando as características dos eleitos através de  textos belíssimos que, apostando na sonoridade da palavra produzida pela rima, aliteração, anáfora,  favorecem a adesão da criança ao texto, facto que vai acontecendo de forma natural e imediata.
As ilustrações são dominadas por duas personagens - poeta e ilustradora - que surgem a branco sobre o colorido dos outros motivos icónicos. A partir da expressividade das formas, é possível inferir reações e emoções da ilustradora em relação ao texto, do poeta em relação às ilustrações, num diálogo contínuo.   Podemos dizer, desta feita, que poeta e ilustradora entram literalmente no livro. Este elemento original vai obrigar a criança a questionar, a querer saber mais, talvez até a querer dar cor ao branco das figuras, chamando para si uma quota-parte de responsabilidade na "feitura" do livro. É um pormenor que contribui para estreitar os laços afetivos que ligam a criança ao livro, tornando mais sólido o "pacto" de leitura que se estabelece entre o texto, a ilustração e o leitor.
Nada falta a este livro para que, em torno dele, se cumpram bons momentos de leitura(s).


Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Pintura

                                                                          Duy Huynh

Há imagens que são verdadeiros poemas. 
Neste rosto parece haver, por parte do autor, a intenção de  transmitir  um certo estado de serenidade. Se atentarmos nas  linhas delicadas, na curva suave dos olhos postos no livro, na atitude tranquila e até na ordem rectilínea dos cabelos, tudo nos leva ao encontro de uma ideia de suavidade e bem-estar. Mas estes elementos são automaticamente contrariados quando nos deparamos com a  presença das borboletas que, munidas de asas, com  capacidade de voar, nos induzem ao movimento, à "inquietação" da viagem, da viagem física ou simbólica. Elas concentram-se na saia porque cobre as pernas, membros impulsionadores do andar/viajar (físico) e no livro porque é um veículo que conduz à viagem/sonho (simbólica). Duas facetas, inerentes ao ser humano, nem sempre de fácil conciliação: o sonho e a realidade.
Mas isto que digo não passa de uma visão contaminada pela maneira de ver dos meus olhos.   
Tal como na poesia, também nesta pintura surrealista/simbolista, os efeitos estéticos têm a  superior qualidade de sugerir muito mais do que afirmar. Desta forma, o leitor é convidado  a recriar, a construir interpretações pessoais, partindo do que lhe é dado observar.

Terça-feira, 15 de Maio de 2012

É este o cenário

                                                                                                                                             Erik Johansson


É este o cenário:

raízes de um poema inacabado
envelhecendo,
uma vidraça atravessada por um deserto,
um tremor de folha caído na aragem
e um rio,
um rio em convulsão
para arredondamento de pedras e silêncios.

Podes navegar nos teus livros,
afundar-te nos seus segredos
que ninguém te arrancará à magreza
de um solo onde não vingam nem promessas,
nem fulgurações
nem tão só esses rebentos de luz
que vejo nos prados dos teus olhos.

É este o cenário.
Junte-se-lhe um cavaleiro, um moinho, uma lança...

Sexta-feira, 11 de Maio de 2012






A raiz da paisagem foi cortada.
Tudo flutua ausente e dividido,
Tudo flutua sem nome e sem ruído.

Andresen, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética, (2010: p.236)

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

Um arco-íris com todas as cores

                                                                                                                   Pintura: Rafal Olbinski   

Hoje quero dizer-te
que já não chove
no rosto que te esperava.
Uma súbita ternura
subiu ao cimo do dia
e o respirar fez-se doce
como fruto, verso, ave ou carícia,
brisa nua.

Procuro-te nuvem, ave, navio...
É tempo de trocar as horas vazias
pela alegria das horas banhadas de orvalho.
[Se soubesses como gosto das rosas
à hora do orvalho!]

É tempo de inaugurar o tempo dos milagres.
Vê como as folhinhas tenras
bebem já o silêncio das árvores,
como o sol corre que nem rio
sobre as coisas frias de outras horas,
como a terra é toda ela um rumor de luz
e de espanto.

Vê, nesta tela por pintar,
como floresce ao fundo um arco-íris,
como todas as suas cores soam, tocáveis
não sei se na tua boca
se na orla dos meus versos.

Um arco-íris com todas as cores...

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Se pudesses apanhar do chão os teus olhos...

Entregas-te dolente a esta paz magra e podre
de um precipitado entardecer.
Lento no gesto de remar contra uma maré negra
que se edifica, se fortifica, assistes
ao inundar das praças, das vielas, dos campos,
dos corpos...
Assistes!

Uma maré que toma tudo
em repentina subida
ao som de corrompidas arpas
bramindo fúrias na voz do vento
Bramindo fúrias...

Estilhaça sonhos
Fere de morte as árvores, suga seivas
Sufoca surdas revoltas
Cala fontes
Seca verdes e aves.
Cala vozes...                                                                                                                    

Segues hoje sob um escurecido céu de maio.
Lento vais pisando levemente o chão
Impregnado de insalubre e rara lucidez.

Se pudesses apanhar do chão os teus olhos
verias, além dos destroços, um pirilampo aceso,
um pequeno fragmento de luz
capaz de crescer, de encher de sangue
as veias dos teus braços amordaçados.

Se puderes, apanha do chão os teus olhos...

Domingo, 6 de Maio de 2012

Como um ninho

                            Redondo como um ninho, um colo de Mãe.

Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Ela passa, outra vez...

                                                                                                                                  Pintura:Paolo Domeniconi

Ela passa, outra vez
esquálida, branca, seca,
a morte.
Pousa imóvel e um halo gélido de finitude
agarra-se fatalmente
aos nossos corações desabrigados.
Noite sem amanhecer sobre os teus olhos
para sempre fechados.

Sob as tuas pálpebras de cera
adivinho ainda o sol em cada sílaba
das nossas infâncias
irmãs
E a alegria de viver sem fadigas,
num só dia, tantos dias.

Partes agora a caminho das estrelas
Levando o teu sorriso de rosto inteiro.

Como empobrecemos, sem ele!