Pintura de René Magritte
Já não era o poema que procurava
Mas sabia-se condenado às palavras.
Só elas acendiam a claridade
Sobre o que verdadeiramente procurava
- o homem.
Nada havia de mais frágil
De mais errante e incompleto à face da terra
[exceto nos momentos privilegiados
Do amor]
Excluído o homem
Nada sobrava para sonhar
Ele era o esplendor, a maravilha
A raiz de tudo onde tropeçava o poeta
A cada nova pergunta.
E no entanto,
No deserto que criara em torno de si
Ele, o homem, era só abandono e desalento.
O mundo, o absurdo,
o desacerto do mundo
Transformara-o
Na sua própria ausência.
O homem está moribundo.
É por ele que chora o poeta
Pelo seu ressurgimento
À luz do próprio rosto
Do próprio coração
Deformado por falta de uso.

17 comentários:
Um poema desalentado?
Um poema de rendição?
Um poema de desespero?
Um poema sem saída? sem solução?
Ou exactamente o contrário
de tudo isso que aparenta
e apenas inquieto lamento
pelo tardio ressurgimento?
Há momentos em que desesperamos
Esperemos...
Ou antes, façamos.
(gostei muito, Lídia. Mesmo muito)
Sem dúvida...o homem está moribundo e já não encontra sentido nas palavras para erguer o seu próprio poema... Uma verdade que dói e tão bem expressa aqui!
Beijo
Graça
Por e simplesmente belo!
Vi o filme e gostei.
Beijinho e uma flor
Perfeito ler o poema como proposta de leitura dum quadro, onde a imagem fosse a que nos é dada a ver no quadro de René Magritte onde um homem de costas vê num espelho as suas costas. Parabéns!
Oi Lídia! Passando para agradecer e retribuir a tua honrosa visita, assim como apreciar mais uma das tuas belas criações.
Beijos e ótima semana pra ti e para os teus.
Furtado.
Minha amiga este poema tocou-me particularmente, pois senti a dor do poeta bem cá dentro, na medida em que tenho o meu paizinho tão doente no hospital. É uma dor que sufoca o meu coração...
Boa semana
Beijinhos
Maria
Olá,
passei para conhecer o seu blog,
beijos
Belíssimo!
Moribundo, no seu egoísmo, porque se esqueceu de amar.
Venham os poetas salvar o que ainda pode ser salvo.
E urgente renascer. Mas de uma forma diferente, no tempo que há-de vir. No Dia Novo!
Beijo.
... entretanto ainda são as palavras
quando respiram por guelras
que transportam os naufragos
e os despojos dos barcos
... entretanto vala apena resistir
Bj
Estou visitando! A poesia me leva ao profundo silêncio, para poder sentir o que ele quer dizer nas suas palavras.
Beijos!
estar condenado as palavras: lembrou-me o mítico castigo de Sísifo, há que renascer a cada dia,
beijo
Vi essa pintura de René Magritte o ano passado no seu museu em Bruxelas, agora lendo este poema sinto a pintura com mais lógica!!! bem escolhido.
Bjs
Aprisiona-se o poema, dentro do homem aprisionado, porque um coração em desuso é um deserto de asas mortas.
Emotivo, forte e belíssimo, como o filme!
Um beijinho, Lídia
o poeta e sua humana condição...
beijos
Gostei bastante, um abraço
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