"O poema me levará no tempo / Quando eu já não for / A habitação do tempo / E passarei sozinha / Entre as mãos de quem lê / - O poema alguém o dirá/ Às searas" - Sophia de Mello Breyner Andresen - Livro Sexto (1962)







Domingo, 22 de Janeiro de 2012

Já não era o poema

                                                                                 Pintura de René Magritte

Já não era o poema que procurava
Mas sabia-se condenado às palavras.
Só elas acendiam a claridade
Sobre o que verdadeiramente procurava
 - o homem.
Nada havia de mais frágil
De mais errante e incompleto à face da terra
[exceto nos momentos privilegiados
Do amor]

Excluído o homem
Nada sobrava para sonhar
Ele era o esplendor, a maravilha
A raiz de tudo onde tropeçava o poeta
A cada nova pergunta.

E no entanto,                                                                                                                    
No deserto que criara em torno de si
Ele, o homem, era só abandono e desalento.
O mundo, o absurdo,
o desacerto do mundo
Transformara-o
Na sua própria ausência.

O homem está moribundo.
É por ele que chora o poeta
Pelo seu ressurgimento
À luz do próprio rosto
Do próprio coração
Deformado por falta de uso.

17 comentários:

Rogério Pereira disse...

Um poema desalentado?
Um poema de rendição?
Um poema de desespero?
Um poema sem saída? sem solução?
Ou exactamente o contrário
de tudo isso que aparenta
e apenas inquieto lamento
pelo tardio ressurgimento?

Há momentos em que desesperamos
Esperemos...
Ou antes, façamos.

(gostei muito, Lídia. Mesmo muito)

Graça Pereira disse...

Sem dúvida...o homem está moribundo e já não encontra sentido nas palavras para erguer o seu próprio poema... Uma verdade que dói e tão bem expressa aqui!
Beijo
Graça

Flor de Jasmim disse...

Por e simplesmente belo!

Vi o filme e gostei.

Beijinho e uma flor

Francisco Coimbra disse...

Perfeito ler o poema como proposta de leitura dum quadro, onde a imagem fosse a que nos é dada a ver no quadro de René Magritte onde um homem de costas vê num espelho as suas costas. Parabéns!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Oi Lídia! Passando para agradecer e retribuir a tua honrosa visita, assim como apreciar mais uma das tuas belas criações.

Beijos e ótima semana pra ti e para os teus.

Furtado.

Maria disse...

Minha amiga este poema tocou-me particularmente, pois senti a dor do poeta bem cá dentro, na medida em que tenho o meu paizinho tão doente no hospital. É uma dor que sufoca o meu coração...
Boa semana
Beijinhos
Maria

Andy Santana disse...

Olá,
passei para conhecer o seu blog,
beijos

Margarida Costa disse...

Belíssimo!

Isabel disse...

Moribundo, no seu egoísmo, porque se esqueceu de amar.

Venham os poetas salvar o que ainda pode ser salvo.

Maria disse...

E urgente renascer. Mas de uma forma diferente, no tempo que há-de vir. No Dia Novo!

Beijo.

Mar Arável disse...

... entretanto ainda são as palavras
quando respiram por guelras

que transportam os naufragos
e os despojos dos barcos

... entretanto vala apena resistir

Bj

Lucimar Sant`Ana disse...

Estou visitando! A poesia me leva ao profundo silêncio, para poder sentir o que ele quer dizer nas suas palavras.
Beijos!

Assis Freitas disse...

estar condenado as palavras: lembrou-me o mítico castigo de Sísifo, há que renascer a cada dia,


beijo

Lilá(s) disse...

Vi essa pintura de René Magritte o ano passado no seu museu em Bruxelas, agora lendo este poema sinto a pintura com mais lógica!!! bem escolhido.
Bjs

Maria João disse...

Aprisiona-se o poema, dentro do homem aprisionado, porque um coração em desuso é um deserto de asas mortas.

Emotivo, forte e belíssimo, como o filme!

Um beijinho, Lídia

heretico disse...

o poeta e sua humana condição...

beijos

Sérgio Pontes disse...

Gostei bastante, um abraço