sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Rasuras





Sobre o poema um céu de chumbo.
O bulício de passos e vozes por ruelas e calçadas
fazem estremecer os versos.

Vinha o poema repleto de barcos e rios
e praças com cheiro a peixe e a pregão
mas a cada gesto de dádiva
nenhuma mão se estendia
nessas ruas de gente dispersa
por onde o poeta seguia.

Foi quando o viu. As barbas grisalhas
caindo no peito, a cabeça a tombar para trás,
braços e mãos tateando o ar sem rumo nem jeito.

Subitamente o poeta estacou.
Rabiscou, rasurou, reescreveu
até que, saídos do poema
soaram, festivos, os latidos de um cão.

No rosto do homem uma centelha brilhou
- Lázaro!... Lázaro!...
O poeta pousou-lhe nas mãos o poema
que abanava vigorosamente a cauda
e saltava e ladrava em desarvorada alegria.

Duas lágrimas rolaram
dos olhos cegos do homem
e da sua voz embargada
um profundo suspiro:
Há tanto tempo que eu o procurava,
meu sol, meu respiro!


*** 
Ia acrescentar que o Sol atravessou
a espessa camada de nuvens e brilhou.
Porém, risquei o verso 
que o Sol, só em poemas do Sublime
se apercebe da pesada solidão dos homens.


(imagem: pesquisa Google s/ ind. autoria) 





2 comentários:

Teresa Almeida disse...

Apetece roubar e assinar. Qual plágio? Seguir o trilho, apenas.
Foi bom o encontro em Braga, mesmo à distância.
Beijinho.

Lídia Borges disse...

Foi bom o encontro em Braga, Teresa. Tive pena de não ter podido ficar um pouco mais para "socializar". Haverá outras oportunidade, por certo.

Um beijo

Lídia