terça-feira, 31 de março de 2009

Versos


Desde sempre guardei versos.
Em gavetas esquecidas,
em caixinhas de cartão,
fechados em envelopes
ou na palma de uma mão.
Versos do estro perdidos,
pobres, sem condição.
Por isso mesmo escondidos,
dispersos na confusão.


Dizem tão pouco meus versos,
deste tão grande sentir
que já não sei o que sinto...
Se são verdadeiros os versos,
se é no sentir que eu minto.

Talvez um dia, o sol possa amadurecer os versos que vou plantando nestas searas...


domingo, 29 de março de 2009

Fernando Pessoa


" As coisas sonhadas só têm o lado de cá… Não se lhes pode ver o outro lado… Não se pode andar à roda delas… O mal das coisas da vida é que as podemos ir olhando por todos os lados… As coisas de sonho só têm o lado que vemos… Têm amores só puros como as nossas almas."




Bernardo Soares in "O Livro do Desassossego"

sábado, 28 de março de 2009

Rumo ao Gerês


A paisagem é deslumbrante!
Os verdes velhos que salpicam as encostas contrastam com a frescura dos rebentos novos.
Evidencia-se o lilás das urzes, o anil dos miosótis, o amarelo das flores do tojo, tintas da paleta de um pintor experiente que distribui pela tela pinceladas sensatas num equilíbrio admirável de cores. Coloca cinzas mesclados no granito das rochas imponentes que se erguem, tocando o azul pálido do céu. Cria explosões efusivas de branco, nas flores da giesta e põe tanta alma na transparência das águas dos regatos que estas se tornam audíveis no seu trautear descontraído.
Aos poucos, as vozes abrandam para que os olhos se deixem inundar pela intensidade do momento e todos os sentidos sejam presenteados com sensações plenas de serenidade e bem-estar.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Confiança



O que é bonito neste mundo e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...



Miguel Torga

quinta-feira, 26 de março de 2009

Palavras


Não sou dona das minhas palavras. As palavras que escrevo não me pertencem.
Ganham vida própria, logo que fogem de mim e mostram-me sob ângulos variáveis porque me
expõem às interpretações alheias, às leituras divergentes, aos diferentes olhares…

É por isso que as minhas palavras
nem sempre são o que eu sou!

terça-feira, 24 de março de 2009

Encantamento

Deixei-me encantar pela vida e agora ela é a serpente
e eu o passarinho inerte, paralisado,
à espera de ser engolido...

Para vivenciar nadas


borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen.
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
descola por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raiz, cinzento-nuvem
borboleta dispõe de intimidades com arcos íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas ela usa os olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

ONDJAKI

segunda-feira, 23 de março de 2009

Poesia ou Amor?

Há quem defenda que a poesia não tem de expressar ideias, tem de ser só uma nova ideia na utilização das palavras…



E se os homens finalmente, enterrassem a guerra
sob pazadas de Paz?
E se fundissem no fogo o f da palavra fome
e lhe oferecessem o c certeiro que acertasse o incerto?
E se na escuridão, acendessem o sol
em cada ser sedento de luz e calor?

O que seria?
Poesia ou Amor?

sábado, 21 de março de 2009

Ver claro


"Toda a poesia é luminosa,
até a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol,
nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar outra vez e outra vez
e outra vez a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar."


Eugénio de Andrade

Poema à Poesia


Não me deixes poesia, assim sem a luz do dia,
não me leves do olhar esta réstia de alegria.
Não me deixes com flores a morrer dentro de mim,
por não as teres cuidado, com tuas mãos de cetim.

Não me deixes poesia, mergulhada em tormentas
nesta noite tão escura, porque dela te ausentas.
Não me deixes poesia!

Tuas janelas abertas
sobre a grandeza do mar,
sobre estes campos viçosos
ou poentes luminosos,
pássaros de fogo a voar,
não mas queiras tu fechar!

Não me deixes poesia na sede do teu olhar.
És leito feito de rio, onde me quero deitar.
E se tiver de morrer de tanto te amar
não lamentes poesia, em ti me quero afogar!

sexta-feira, 20 de março de 2009

Glicínias



Cachos pendentes,
latadas de Abril
nos muros e veredas.
Aromas prementes,
perfumes fugazes…

A perfeição,
aqui e agora,
neste velho caminho
com cachos pendentes
de glicínias lilases.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Ao meu pai...

Queria falar-te por um só momento,
mas há muito se esgotou o nosso tempo.
Ainda no teu copo metade da vida por beber
E já o fim…o completo escurecer!

Não é muito o que tenho a dizer.
Só queria poder contar-te do azul deste céu.
Contar-te do mar, destes campos verdes,
das montanhas, dos regatos,
para tu saberes como aprendi a ver
pelo teu olhar.

Sabes, às vezes ainda peço às borboletas
as asas emprestadas para poder ir
contar os segredos às flores. (lembras?)
Ainda sei o sabor das amoras dos silvados.
E leio sem ninguém ver,
histórias de príncipes encantados.

Só não aprendi a coragem, a ousadia
de ser eu,
antes de todos os outros.
Compreendo agora que não podias
ensinar-me
o que tu próprio não sabias.
E essa tua, minha cobardia
que às vezes tanto me dói,
faz de ti, o que sempre foste:
o meu Pai, o meu Herói…

terça-feira, 17 de março de 2009

Cecília Meireles

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta."

Cecília Meireles

Crianças



Crianças...
Alarido, risos,
colorido!


A janela,
moldura da mais bela tela.
E nela… correm
Desnorteadas
como formigas
perdidas.

A desorganização organizada:
Perfeição
Harmonia
Plena Alegria!

Despontam das margens,
brotam dos ângulos,
alinham as rectas
confluindo num ponto de fuga: Eu

segunda-feira, 16 de março de 2009

Amendoeiras em flor


Do chão agreste,
elas se erguem.
Bailarinas de branco louvando o Sol!

E a brandura indubitável que exalam,
aniquila
a severidade do solo,
armado de paus e pedras.

domingo, 15 de março de 2009

"Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias."

Eugénio de Andrade

sábado, 14 de março de 2009

Manhã

Há manhãs assim!…
Em que o milagre da luz vítrea
põe a água a dançar entontecida,
a terra a cantar despertando sementes,
a pedra a falar
e o vento a murmurar segredos às árvores…

Natureza Viva


Era uma manhã de pássaros!
Choviam raios de sol que inundavam
a Terra de uma claridade luminosa.

A criança descalça, em biquinhos de pés,
abriu a porta de brisa
e correu solta, pelo verde macio do chão.

Som, luz, cor e inocência fizeram
uma dança de roda.

O pintor de mãos vazias,
pintou um quadro sem som
e o poeta arrebatado,
escreveu um poema sem cor!...

sexta-feira, 13 de março de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

Ninguém meu amor


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
Vendando-nos os olhos

Sebastião Alba

Sebastião Alba

Dinis Albano Carneiro Gonçalves, cujo pseudónimo é Sebastião Alba, nasceu e morreu em Braga. (11 de Março de 1940 - 14 de Outubro de 2000)
Em 1950 vai com a família para Moçambique, onde se forma em jornalismo e lecciona em várias escolas. Naturaliza-se moçambicano.
Regressa à cidade dos arcebispos, onde ocupa uma posição cimeira no ambiente cultural bracarense. Publica três livros de poesia: "A Noite Dividida", "Ritmo do Presságio" e "O Limite Diáfano".
Sebastião Alba era o poeta marginal.
Sobre ele, Fernando Pinheiro escreve:
“ Figura controversa, por teimosamente rejeitar qualquer oferta de protecção ou abrigo, por ser bêbado, provocador e mal-cheiroso, incumpridor contumaz das normas sociais: foi atropelado fora de uma passadeira. Afinal, as passadeiras também existem para proteger os errabundos. Por outro lado, era um ser desprendido, dava o pouco dinheiro que tinha a mendigos ou vadios, sendo ele mesmo um mendigo de grande dignidade, pois aceitava actos de caridade contra actos de gratidão: tocava peças musicais ou oferecia poemas a quem o ajudava.”
Excerto do texto: “ O Poeta Vagabundo"


Morre aos 60 anos, atropelado numa rodovia da cidade.
Deixa um bilhete dirigido ao irmão: «Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá».

terça-feira, 10 de março de 2009

Cansaço


Ah! Como dói
este cansaço
das viagens que não fizemos
por falta de ousadia.

O cansaço
de não sermos capazes de
vencer o cerco da solidão.

Como dói o cansaço das esperas,
por não arriscarmos partir
e… chegar!
O cansaço do vazio
entre alvoradas e crepúsculos,
por não sabermos
repousar
nos desejos ignorados.

Como dói este cansaço,
insustentável
de NÓS…

E depois…
Acusamos o mundo do nosso cansaço
e estranhamos, quando o mundo
se mostra cansado de nós.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Montanha


Hoje, nada me prende dentro de mim.
Apetece-me estender o olhar até ao infinito,
onde a montanha beija o céu
e se entrega aos seus afagos…

domingo, 8 de março de 2009


“E a praia é alva e cheia de pequenos brilhos sob o sol claro. Inutilmente parecemos grandes.”

Ricardo Reis, in "Odes"

Praia

Serena, a tarde!
Do céu pende uma cascata de raios de sol que inunda tudo em redor.
Sem poder resistir ao apelo do mar, entro na praia deserta de gente, mas plena de esplendor.
Dou passos leves para não acordar a areia que sossega, depois de varrida pelo vento.
Os gritos das gaivotas desaguam nos murmúrios infindáveis do mar. Tenho nos olhos toda a lonjura do azul e nas mãos, um punhado de versos que vou desfiando como contas de um rosário.
Mais um passo, mais um verso…
E, de súbito, deparo-me com ela – a Paz! Linda no seu vestido branco de espuma, bordado a conchas e algas.
E o mar todo me vem aos olhos, como única forma de celebrar o momento.

sexta-feira, 6 de março de 2009


À hora crepuscular, hora de toda a verdade,
os sonhos tornam-se tocáveis, por entre poeiras de brilho…

Bem os vejo!

Bem os vejo… os sonhos,
pássaros livres
voando em redor de mim.

Do fundo deste temor
de poder existir ainda
nas suas asas oníricas,
nenhum gesto ensaio
para os perseguir.

De quando em vez,
vem um
pousar na minha mão
ou no meu ombro e então,
eu deixo que me invada,
me afogue
que regule os meus sentidos.
Vivo-o intensamente,
enquanto quiser ficar.

Depois, quando vai embora
entardecido,
espero que se apaguem
as poeiras luzentes que ele espalhou
e engrandeço
por me ter acontecido.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Amigo



Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

Ao som de O’Neill


…E todo o meu ser se deixa inundar por uma doce melodia que preenche a alma e aquieta o coração.
Obrigada!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Quem ensina a árvore a florir?


Quem ensina a árvore a florir?
Quem dá à flor o poder de ser fruto?

O que a Natureza nos faz pensar!...

A nós, que temos medo de florescer,
de transformar em frutos
as poucas flores das nossas almas solitárias.
Preferimos deixar cair as pétalas, uma a uma
e depois… Chorar sobre elas.

Temos tanto a aprender com a Natureza!...

terça-feira, 3 de março de 2009

Tu és a esperança, a madrugada

Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é perfeita e mais dourada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade


Amanhecer


Amanheço
Com um verso a bailar-me na cabeça,
A pedir-me que o colha
Antes que apodreça.

Pego nele com cuidado,
Fruto maduro adocicado!
Coloco-o num poema,
Aconchegado!

Hoje, será um bom dia.
É-o sempre,
Se me acorda a Poesia.