sexta-feira, 29 de maio de 2009

A Tarde

Nostálgica é a luz que desliza das margens deste rio sem ti.
Os chilreios do tempo ecoam nas águas de vidro
E através delas, vêem-se melodias silenciosas
Abandonadas à sombra dos limos.
A tarde esmorece... Inteira!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

Não quero saber do tempo

Não quero perder-me
Na rotina dos dias ignóbeis.

Não quero saber da vida
Nos seus uivos de vaidade,
Nos murmúrios ansiosos
Dos ponteiros do relógio.

Não quero saber do tempo!

Quero só falar às fragas,
Às ervas do caminho, ao vento.
Quero perder-me nas nuvens,
Passear no arco-íris,
Saltar de cor em cor
E cair no céu,
Imersa no azul do infinito.

E quando estiver cansada,
Quero adormecer num quarto da lua
Iluminada pela luz suave do luar

E repousar… repousar!

domingo, 24 de maio de 2009

Onda

Deste mar
a mover-se constantemente
nada sei.
Da sua inquietude,
não conheço a razão.
Do seu rumorejar rude,
Irritado
Não sei!

Mas todo o meu ser,
num enamoramento sem par
imerge no seu bailar.

Deixo-me embalar na voz do vento
e num ímpeto
difícil de explicar,
já não sou quem sou.

Vestida de branca espuma
Sou onda
Perdida para sempre
No contínuo ondear
Deste mar…

Deste mar!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Não choro...

A dor não me pertence.
Vive fora de mim, na natureza,
livre como a electricidade.
Carrega os céus de sombra,
entra nas plantas,
desfaz as flores...
Corre nas veias do ar,
atrai os abismos,
curva os pinheiros...
E em certos momentos de penumbra
iguala-me à paisagem,
Surge nos meus olhos
presa a um passaro a morrer
no céu indiferente.
Mas não choro. Não vale a pena!
A dor não é humana.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A casa

A casa fecha-se na sua solidão.
As janelas de silêncio, abraçadas pela hera são grandes pálpebras fechadas ao sol e na alvura das paredes há bichos de sombra ondulantes comendo a cal.
Sozinha, a casa desgasta memórias no lusco-fusco dos corredores vazios, nos retratos parados que sorriem nas molduras antigas, sem ninguém saber porquê.
A casa respira ainda, nos sons roucos dos canos enferrujados, na crepitação das velhas madeiras inconformadas, nos espelhos, portas luminosas das masmorras do passado por onde chegam espectros esquálidos nas noites de temporal…
Na memória das paredes, a vida em cada objecto mudo: a cadeira, a jarra, o abajur, o quadro. Na memória das paredes, os risos das crianças no jardim, as árvores e os ninhos, a jovem de rosto claro e sonhador. E, sobre o banco de pedra, um chapéu com fita azul, abandonado.
Condenada ao isolamento, a casa chora!

(Fotografia de Fernanda Paredeshttp://olhares.aeiou.pt/Nanda17)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Aqui

Aqui, neste refúgio
fora do tempo e do espaço,
neste lugar sem mácula,
onde as poeiras de ouro lúcidas
escorrem das árvores
e nos cobrem de quietude,
é que eu quero ficar.

sábado, 16 de maio de 2009

Pelo teu voo é que eu vou

Pelo teu voo é que eu vou
neste dia de céu sombra
donde a água deslizou
em pétalas leves de vida.

Pelo teu voo é que eu vou!

Dessa chuva me vestiste
e o sol sem abrir,
brilhou!

Quero a alegria que me dás
no adejar dos sonhos sonhados.
Mas essa é a mesma alegria
que se esconde, fugidia
dos teus dias desolados.

Pelo teu voo, eu vou,
pelo teu sonho, eu sou!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Flor do cardo

Há dias em que me detenho em pequenos nadas que me enchem de tudo.
Hoje deparei com uma flor de cardo que resolveu pôr-me a pensar.
Linda a flor, de vistosa corola lilás! Mas nasce no meio de um tal emaranhado de espinhos que poucos se atrevem a colhê-la.
Vejo esta flor de forma muito peculiar: ela seduz com a sua beleza, mas não se deixa colher, fazendo dos agressivos espinhos, seus fiéis guarda-costas. Despreza assim os pretendentes indecisos e desafia os corajosos, tudo isto a coberto duma suposta singeleza inerente à maioria das flores silvestres.
Obriga quem a quer apanhar, a arriscar, a dar provas de audácia, seleccionando assim, de forma natural, os que desejam usufruir da sua companhia
Para melhor a conhecer, podemos atentar na sua qualidade de rudeza: sobrevive em ambientes infecundos, rochosos, resiste ao calor, à sede… Pouco exigente, portanto! Mas vendo bem, deixa a descoberto o seu snobismo ao julgar-se desejada e inatingível. Que emproada! Vaidade a mais, para quem acaba a coagular o leite que dará o queijo!
Agora só me interessa contemplar esta maravilhosa jarra com flores de cardo, da minha cor preferida: violeta.

Ah! Os arranhões nas mãos?
Nada que não se cure rapidamente com um pouco de betadine.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Filosofia

Porque hoje, de repente a “Filosofia” de Nuno Júdice se parece, inequivocamente com a minha.

"Construo o pensamento aos pedaços: cada ideia que ponho em cima da mesa, é uma parte do que penso; e ao ver como cada fragmento se torna um todo, volto a parti-lo, para evitar conclusões."

domingo, 10 de maio de 2009

De que serve saber a nuvem…

Quem me dera saber muito!
Quem me dera saber tanto
como esses que escrevem
grandes tratados,
estudos complicados
para explicar o mundo.

Quem me dera como eles,
senhores de grandes segredos,
decifrar a parte e o todo
sem dúvidas nem medos.

Sei coisas que todos sabem
Mas…
De que serve saber a nuvem
a quem não sabe fazer chover?
De que serve saber a flor
sem a fazer florescer?
De que serve saber o amor
chama, sangue, vida
se não o deixamos acontecer?
De que serve saber o vinho,
o delírio, a alegria
Se não o queremos beber?
De que serve saber o fogo
Se não nos deixamos queimar?

De que serve sabermos de nós
Se em nós não sabemos ficar?

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Manhãs

Antes de todas as coisas
era a escuridão.
Era o frio que me doía nas mãos,
era a lenta passagem dos minutos, das horas
nos relógios de todos os invernos.

Depois, tu vieste e eu descobri
que nos teus olhos
é que as primaveras
se escondiam.

Acendeste as estrelas nas noites
e elas transformaram-se em dias.
Despertaste os chãos, os jardins
e todas as palavras
que se apagavam em mim.

Dos meus dedos voaram borboletas
e a morte morreu nas cascatas de luz
das manhãs que tu inventaste.

Há noites


Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
.......
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo...

Natália Correia

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Parabéns Fernanda!!!

Mais uma foto de Fernanda Paredes. Esta é especial !

A autora foi hoje agraciada com uma menção honrosa, no âmbito do Concurso de fotografia submetido ao tema “A Semana Santa em Braga.”
A cerimónia pública decorreu na FNAC (entidade patrocinadora) e contou com a presença de várias individualidades da cidade, entre as quais o Presidente da Câmara, Eng. Mesquita Machado.
Todas as fotos premiadas se encontram em exposição à entrada da FNAC.
Vale a pena dar uma espreitadela!

Feira da Ladra

(…) e o soldado cansado da guerra, disse:
- Vou pôr à venda o capacete, as botas, a mala…
antes que tenha de vender a alma ao Diabo!



Fotografia de Fernanda Paredes

terça-feira, 5 de maio de 2009

Hoje nenhuma montanha me seduz!


Hoje, nenhuma montanha me seduz!

Hoje, não dou os meus olhos ao mar
Nem às nuvens que se não vêem passar.

Hoje não quero as cantigas do vento
Por entre as pereiras do quintal
Nem os trinados dos pássaros
Que pousam no beiral.

Hoje não me aquece o calor do sol
Nem me cativa a mansa luz
De um presumível luar...

Porque hoje sinto nas mãos
Estas grades de ferro frio
Que me enlaçam...assim!

Porque hoje quero evadir-me,
Quero fugir
Para bem longe de mim.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços,
acolher nos ramos o vento,
a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade in "As mãos e os frutos"

Almoço

Era Dia da Mãe e à hora do almoço acabei com a família à mesa, num desses restaurantes apinhados de gente.
É sempre assim quando em casa, a cozinha encerra para "descanso do pessoal."
Mesmo à minha frente, uma família de três mulheres: mãe e filhas, depreendi.
O quadro prendeu-me a atenção durante muitos momentos. A mãe ao meio das duas resmungava continuamente com a legitimidade que a idade lhe confere, enquanto elas lhe dispensavam atenções sem fim. Uma dava-lhe a comida na boca. A outra chegava-lhe o copo de água ou limpava-a suavemente, com o guardanapo. Mais uma colher, mais um carinho, outra colher, outro carinho, sorrisos…
Só depois da mãe saciada é que as filhas deram início à sua própria refeição.
Senti-me embevecida com o cenário, até porque a idade delas (filhas) rondaria os setenta anos.
Cómico foi ver que a mãe depois de almoçar, não mostrava qualquer resignação em estar ali. Levantava-se com uma ligeireza admirável, mas logo era reprimida em gestos afectuosos que a faziam sentar de novo, entre beijos, abraços e palavras ditas ao ouvido que, por certo ela não ouvia, pois insistia na sua determinação em sair dali.
Após a refeição engolida à pressa, as filhas lá abalaram com a mãe pela mão.
Mãe é Mãe, bem sei! Mas fiquei a pensar:
A partir de que idade é que a velhice é um posto?

domingo, 3 de maio de 2009

Dia da Mãe

Rita – Mãe, queres que te compre alguma coisa, em especial para o Dia da Mãe?
- Não filha, obrigada. Não preciso de nada!
Xana – E alguma coisa especial, daquelas que não se compram, precisas?
- Sim… Muito!

A Ritinha com o tempo, vai aprender a acertar as perguntas.

Beijos ternos para elas por fazerem de mim uma Mãe... vaidosa!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Quintal

Também na minha infância
houve um quintal!
Estou a vê-lo
das águas furtadas da memória,
à luz dos meus cinco anos.
O poço à direita, o pombal…
O verde do buxo a dividir canteiros
de flores, de tomates, de ervilhas...
Ao fundo,
a figueira contorcida
nos seus ramos irregulares…
No Outono
o pote negro da marmelada
sobre as chamas,
a pasta rubra a palpitar
Fervente…

Uma parte dos meus sentidos
ficou presa na infância para sempre
Se assim não fosse,
como poderia agora sentir
o doce aroma
da marmelada acabada de fazer.
Como poderia ver as pombas a voar,
escutar-lhes o som das asas,
ao pousarem nos muros?
Como poderia ter a ilusão de saborear
o mel dos longínquos figos maduros?
Como poderia fugir assim
deste presente a que me dou
e voltar ao passado sem sombra
onde a infância ficou?