terça-feira, 29 de setembro de 2009

Da janela rente à árvore, com o campo inteiro nos olhos e os ouvidos tomados pelo tagarelar apressado dos pássaros, vejo partir o Verão carregando o sol no regaço.

domingo, 27 de setembro de 2009

Porque é que este sonho absurdo

Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sono de Outono


Já esta meia-luz dourada
a vestir o entardecer,
afaga os meus sentidos
tão perto do sossego.

Quando a escassez da luz me vier pousar nas mãos,
quando os raios de sol se esconderem
nos risos das crianças
e o vento correr a espalhar segredos
nas folhas ruborescidas

Quando a chuva vier,
silenciosa
abrigar-se no poema,
o sono
descerá, de mansinho, ao meu quintal
para apagar o Verão
e adormecer as borboletas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Névoa

Esta névoa densa, lençol a descair do céu vai diluindo os teus olhos, o teu rosto, o teu corpo, no imparável pulsar dos ponteiros do tempo.
Mas a tua voz, ignora a sombra e chega-me suave em ondas de afagos, mornas e translúcidas, abrindo fendas no nevoeiro.

sábado, 19 de setembro de 2009

Por terras de Trás-os-Montes e Alto Douro


Foi aqui, em S. Leonardo de Galafura, neste miradouro, a meio caminho entre a Régua e Vila Real que Miguel Torga escreveu, a 8 de Abril de 1977, este "poema geológico" dedicado à região do Douro:

« O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.»

Fotografias de Lídia Borges

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Só uma janela...

No cair lento daquele dia inútil, olhava pela janela com a mente vazia, sem qualquer eco!
Queria parar, dar férias aos pensamentos, ignorar sentimentos, fugir aos apelos dos sentidos!
Bem percebia, a bailar-lhe na cabeça, um amontoado confuso de ideias soltas aos tropeções, frases decepadas, pensamentos em pedaços deixados ao relento, destroços de uma batalha que não sabia se ganhara ou se perdera.
Agradava-lhe a ideia de ver essas anomalias arrumadas, ceder à tentação de reorganizar tudo, de colocar os sentimentos catalogados nas prateleiras correspondentes do cérebro, assim como livros, nas bibliotecas. Mas parecia-lhe uma tarefa incomensurável!
E depois? O que faria quando tudo estivesse arranjado?
Obedeceria aos caprichos da ordem reconstruída, deixaria que fosse ela a comandar-lhe a vida a revelar-lhe certezas que não queria ter, segredos dele próprio que temia desvendar?
E assim, inerte na dúvida que lhe tolhia os gestos, repousava no caos, no desentendimento total das verdades, olhando pela janela aberta sobre o nada…O nada entre brumas densas de indecisão.
Sentenciou que não estaria mais para ninguém, nem mesmo para aquelas pessoas que passavam na rua sem rosto, vultos distantes, sem detalhes a que se pudesse prender.
Queria ficar longe… longe dele próprio, perto das coisas vulgares. Das coisas, à margem do tempo, que eram a eternidade e não moravam nos seus sonhos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Porto Antigo - Pedro Barroso

O velho Douro é como um hino à Natureza

Escorrendo entre os dedos na montanha

Ao sol que o faz vibrar e pressentir

Mostrando a história em socalcos vinhateiros

Nos solares de baronetes e herdeiros

Com brasões verdadeiros ou a fingir

Pedro Barroso

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ainda é verde o sentimento

Cada manhã parece ter agora o rosto mais triste, a pele mais pálida.
Mas ainda é verde o sentimento e pura a água das fontes…
Ainda respira a terra e eu não tenho pressa de refugiar-me no vento para escrever o resumo das minhas dores invisíveis.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Dói-me esta racionalidade
que tenho pousada nas mãos...
Eu só quero as árvores nos seus vestidos de Outono para sempre
e os silêncios, repletos de música
nas aves que habitam a minha fragilidade.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O tempo demora-se sobre a vinha, sobre o pomar…
Os pássaros, [como não falar dos pássaros?] debicam gorjeios e espalham-nos pelo silêncio da tarde, esperando que ela não adormeça reclinada no sossego brando das horas.
A tarde!... Escorre-lhe do dorso um rumor constante de água a saltitar nas pedras surdas do riacho.
O sol descansa nas folhas das árvores devagar, dizendo-lhes que será Outono, em breve. Elas riem descrentes e dançam na voz do vento aleivoso, a embalá-las com promessas de eternidade.
A casa permanece, sem idade. No interior das paredes ecoam vozes alegres vindas de meninices longínquas.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Quando em sossego te penso


Quando, em sossego, te penso
és flor em prado verde, água pura,
árvore de verde vestida
celebrando o amanhecer.

Que falta faz a tua primavera aos meus olhos!
O teu verde às minhas janelas de sardinheiras tristes.
A leveza dessa água à sede da minha boca.
A sombra das tuas árvores a esta minha alma árida.


Ah! Se eu pudesse ainda
crer na primavera, cobriria o meu outono
de flores, de abelhas, de borboletas,
de pássaros eternos...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Como um vento na floresta


Como um vento na floresta
Minha emoção não tem fim
Nada sou, nada me resta
Não sei quem sou para mim

E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem
Também agito segredos
No fundo da minha imagem

E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento
Sou ninguém, temo ser bom.

Fernando Pessoa

terça-feira, 1 de setembro de 2009

brinquedos de corda

Já não se vêem passar as crianças em bandos
pelas ruas e caminhos
rindo e brincando, como alegres passarinhos.

Já não jogam à bola, ao pião
nem sobem às árvores para espiar os ninhos.

Os tempos livres onde estão?

Já não mandam nas brincadeiras nem sabem fazer asneiras.
E o brincar ao faz-de-conta é sonho de muita monta.
As crianças são agora, simples brinquedos de corda,
adultos em miniatura a viverem na escola.


São tão crescidos, pois então...
Usam o computador melhor do que o professor.
Falam sempre com razão, sim senhor!

Mas se caem no recreio
Ai que grande aflição!
Tanto grito, e pelo meio
Não se vê um arranhão.


Não há maior violência que negar a uma criança
o direito de errar, de viver a sua infância.
De ser feliz, de sonhar...

Está a castrar o futuro deste céu, deste mar
quem lhes quer cortar as asas e o direito de voar.