sábado, 23 de março de 2013

Impressões (colhidas num Dia da Poesia)



O dia nasce sem assombro.
Das árvores não pendem poemas
nenhuma cotovia rasga verticalmente o ar 
nos rostos não se veem indícios de poeticidade
nas mãos pouca vida para acalentar. 

Despes do frio uns versos que dedicas à Poesia
e recuperas o fôlego. Sossegas. 
Mais logo, mais logo…  
a poesia a si própria se  bordará

As vozes vieram de longe, eloquentes e sábias
mas os ouvidos contavam-se pelas cabeças:
seis ao todo, tirando a tua, [salvo seja(s)].
Que se passa que já nada [se] passa?

Um recanto decorado a preceito
uma atmosfera de fazer germinar encantos.
Em cada cadeira uma receita médica:
“A poesia é o melhor remédio”
Ironia!
Os enfermos sem asa e sem sonho
não compareceram à consulta.

A ti, receitam-te O’Neill - Em todo o acaso
Administra-lo, logo ali, sem demoras nem reservas.
E não te sentes melhor quando olhas, pela centésima vez,
o relógio.
Experimentas as receitas das cadeiras em volta
tristemente desertas.

Tomas, às colheradas Pessoa, Florbela;
um pouco de Nemésio, Camões
Afinal é um desperdício inaceitável
tanto remédio sem préstimo.
Uma intoxicação benigna sobe-te ao cérebro
e salva-te quando é dado início formal
à conversa informal:
“A influência da poesia... " A influência da Poesia?!

Regressas a casa com várias receitas
dobradas em quatro, no bolso do casaco, [para tomar em SOS].
Os narcisos sorriem na derradeira luz 
que vai descendo a calçada do fim da tarde.
A Poesia pousara neles o seu beijo excessivo.

Mais belos que nunca, os narcisos!


15 comentários:

P. P. disse...

Lindíssimo momento (incluindo a fotografia)

Mar Arável disse...

Todos somos poetas

alguns tentam escrever

Bjs

Teté M. Jorge disse...

Narcisos lindos!!!! "...a poesia a si própria se bordará"

Beijos.

Graça Sampaio disse...

«Despes do frio uns versos que dedicas à Poesia» - muito bonito! Filigrana...

Beijinhos

Rogério G.V. Pereira disse...

Desarmas palavras de que vinha munido
Deixa-las não faz sentido

Das receitas aviadas
sobra-te alguma mezinha
para este meu estado febril?

Ou terei que esperar Abril?

Rui Pascoal disse...

Tanto haveria para dizer
Se eu o soubesse fazer...
Fico-lhe com a receita
Para curar esta maleita...

Bem Haja!

Unknown disse...

ah estes poetas, sorvê-los em desregramento



beijo

Isa Lisboa disse...

Eu gosto dessa receita, mesmo que não seja no dia da poesia!

Beijo, boa semana

Isa Lisboa
=> Instantâneos a preto e branco
=> Os dias em que olho o Mundo
=> Pense fora da caixa

Anna disse...

Mais bela do que nunca, a tua Poesia!

Beijo meu

linksdistodaquilo disse...

Belíssima poesia!
Beijo.
Nita

lis disse...

Natália Correa já nos oferecia a iguaria para a alma e escrevia:
... " uma impudência a mesa posta/de um verso onde o possa escrever/Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer"
Para mim é terapêutico e sempre que aqui venho 'regresso com várias receitas'
Obrigada linda poeta Lídia
Parabéns pelo seu dia e tenha lindos dias.

deep disse...

Passo por cá e aproveito para beber umas colheradas de poesia, de boa poesia. Apesar da chuva e da soturnidade do dia, fico, assim, mais satisfeita.

Obrigada, Lídia. Boa semana. Beijinhos

Flor de Jasmim disse...

Gosto da receita, seja ou não em dia de poesia!
Bela poesia, tão bela como os Narcisos.
Boa semana Lídia

beijinho e uma flor

AC disse...

É isso, Lídia, a poesia é um estado de alma, não se adquire mediante receita.
Louvo a lucidez do poema.

Beijo :)

Mateus Medina disse...

" A Poesia pousara neles o seu beijo excessivo.

Mais belos que nunca, os narcisos!"

Ainda hei de contar quantas vezes já escrevi a palavra "lindo" nesse blog...

Ah, vai mais uma... Lindo!

bjos