segunda-feira, 30 de novembro de 2015

coisas da vida

imagem Edouard Damouse
     
A pintura!... Gosto de pintar muito mais do que fui capaz de perceber ao longo de uma grande parte da minha vida.
 Recentemente, comecei a pintar. Quando o faço entro numa espécie de redoma imensa cheia de ar fluído, insonorizada,  de uma opacidade que em vez de escurecer o espaço interior, me leva a uma exterioridade espantosa, deixando à vista um mundo em tudo diferente deste. Diáfano! Não ouço e não vejo e no entanto, tudo é música e claridade. Nada para além das tonalidades infindáveis de cada cor, da luz, da perspetiva, do movimento leve dos pincéis correndo a tela, me é consciência. Creio até que deixo de pensar. Não me recordo de ter palavras a cirandar no pensamento enquanto pinto. Nada me é realidade e verdadeiramente presente. O meu cérebro distende-se tanto que os "grandes" problemas do quotidiano como a porta do armário desengonçada, o almoço para fazer, a consulta da mãe, os exames médicos, a estupidez daqueles a quem o espelho engana - "Espelho meu, espelho meu", há umbigo maior que o meu? - e o grotesco espelho rindo, rindo, são partículas de um ridículo qualquer. Questiúnculas que, de tão relativizadas, se tornam parte de um mundo do qual me vou despedindo por enjoo, tédio, cansaço...
    Quando não pinto, penso. E trato da porta desengonçada e faço o almoço e vou à consulta e tenho dó dos "umbigudos" e das suas "tristes" justificações para tudo que não justificam nada.
   
 Por vezes como, com indizível prazer, um diospiro maduro de uma árvore próxima sem enjoo, sem tédio, sem cansaço, o que me faz acreditar que, misteriosamente, descobri uma passagem secreta entre mundos paralelos que se (des)consertam para meu conserto.