imagem Edouard Damouse
A pintura!... Gosto de pintar muito mais do que
fui capaz de perceber ao longo de uma grande parte da minha vida.
Recentemente, comecei a pintar. Quando o faço entro numa espécie de
redoma imensa cheia de ar fluído, insonorizada, de uma opacidade que em vez de
escurecer o espaço interior, me leva a uma exterioridade espantosa,
deixando à vista um mundo em tudo diferente deste. Diáfano! Não ouço e não
vejo e no entanto, tudo é música e claridade. Nada para além das
tonalidades infindáveis de cada cor, da
luz, da perspetiva, do movimento leve dos pincéis correndo a tela, me é
consciência. Creio até que deixo de pensar. Não me recordo de ter
palavras a cirandar no pensamento enquanto pinto. Nada me é realidade e
verdadeiramente presente. O meu cérebro distende-se tanto que os
"grandes" problemas do quotidiano como a porta do armário desengonçada, o
almoço para fazer, a consulta da mãe, os exames médicos, a estupidez
daqueles a quem o espelho engana - "Espelho meu, espelho meu", há umbigo
maior que o meu? - e o grotesco espelho rindo, rindo, são partículas de um ridículo qualquer. Questiúnculas que, de tão relativizadas, se tornam parte de um mundo do
qual me vou despedindo por enjoo, tédio, cansaço...
Quando não pinto, penso. E trato da porta desengonçada e faço o almoço e vou à consulta e tenho dó dos "umbigudos" e das suas "tristes" justificações para tudo que não justificam nada.
Quando não pinto, penso. E trato da porta desengonçada e faço o almoço e vou à consulta e tenho dó dos "umbigudos" e das suas "tristes" justificações para tudo que não justificam nada.
Por vezes como, com indizível prazer, um diospiro maduro de uma árvore
próxima sem enjoo, sem tédio, sem cansaço, o que me faz acreditar que,
misteriosamente, descobri uma passagem secreta entre mundos paralelos
que se (des)consertam para meu conserto.
