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Agora
que é chegada a época natalícia e, como tal, a palavra "paz" parece mais próxima, dou comigo a pensar
que a entrada para este mundo deve ter, pelo menos, duas portas - a da paz e a
da guerra. Cada indivíduo ao nascer, tiradas as impressões digitais, observados os
elementos de ADN e outras tendências estruturais da personalidade é, desde logo, encaminhado para
uma das portas e daí para a parte do mundo que lhe é correspondente onde deverá
permanecer ao longo do tempo que lhe couber viver, para equilíbrio do planeta e de si próprio.
Por razões muitas e mais que provados pacifismos, devo
ter chegado a este mundo pela porta da paz. Mas estar deste lado "posta em sossego" enquanto "tudo arde", levanta uma questão que
me tem atormentado, ultimamente. Na verdade, apercebo-me de que outros, como eu, defensores dos princípios
basilares da paz são capazes de se passar, em casos de
"necessidade extrema", para o outro lado e entrar em lutas atrozes pela proclamada paz, dando crédito ao antigo Aristóteles para quem a guerra tinha por finalidade precisamente a conquista da paz. Irónica imagem!
A esses eu devia admirar mas... vejo que acabam por engrossar as hostes do adversário, confundindo-se perigosamente com ele. Quanto a mim, a guerra, seja ela de que natureza for, é-me absolutamente
intolerável e só de a pensar, por mais pequenina que seja, pesa-me o coração. Tudo isto é verdadeiramente confuso, a meus olhos.
Interrogo-me, por vezes, se ter um coração que pesa tão pouco, estará certo. Se ainda fará sentido
colocar em campos de batalha distintos, frente a frente, o Bem e o Mal.
Tratá-los independentemente, um branco outro preto, sem que o preto enegreça o branco, sem
que branco matize o preto. Não sei se será certa esta minha antiquíssima certeza
de que quem faz o Bem será agraciado e, pelo contrário, quem faz o Mal,
castigado. Como? Se o Bem é para uns o Mal, e este, para outros, o Bem. Como? Se
o Mal se esconde na bainha do Bem, se o Bem se não esquiva inteiramente ao Mal.
Um dia, não amnistiar o inimigo, aceitar a
revolta da vítima, como legítima e permitir-lhe uma certa dose de crueldade poderá ser o mais certo? Haverá um dia em que o “perdoar” seja o errado e o “não perdoar” o certo? É-o já hoje?
Cheguei
aqui pela porta da paz, não tenho dúvida, mas temo que o meu coração não tenha o peso mínimo exigido
para poder movimentar-se tranquilamente nos domínios da consciência.
Fiquem em paz!

3 comentários:
Belíssima reflexão Lídia, fi-la passo a passo pesando cada palavra. É difícil nascer do lado da Paz, mas acredito que para a defendermos infelizmente nem sempre o perdão chega, apesar de esgotarmos todos os meios pacíficos, mesmo contra a vontade por vezes é preciso "prender os maus", sob pena de os deixarmos esmagar o resto do mundo. São muito mais ágeis, astutos e ferozes os que estão do lado da guerra e os que se passam de um lado para outro terão que assumir os seus actos e as consequências.
Este texto mereceria da minha parte um comentário ainda mais vasto, mas deixo apenas uma alusão à nossa linda e romântica revolução dos cravos, que permitiu liberdades várias e assim deveria ser, mas a generosidade do momento e o perdão permitiu que alguns que estão do lado do capital e do cercear das mesmas liberdades se passeassem por esse mundo e voltassem paulatinamente a inverter muitas das conquistas feitas. Terá sido uma boa opção ter-lhes sido dada toda essa liberdade e perdão?
Interrogo-me muitas vezes sobre isso.
Um grande beijinho
Assino o comentário da nossa Branca
e remete um beijo às duas
"Um dia, não amnistiar o inimigo, aceitar a revolta da vítima, como legítima e permitir-lhe uma certa dose de crueldade poderá ser o mais certo? Haverá um dia em que o “perdoar” seja o errado e o “não perdoar” o certo? É-o já hoje?"
Por vezes nem é importante a resposta, basta-me o desassossego das perguntas!
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