quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Um jardim de calcário



Um jardim de calcário pode ser um hospital.
Paredes sólidas sem uma só janela, o branco demasiado branco da luz artificial, o televisor a cacarejar continuamente, as conversas cruzadas, as injúrias, o tlintar irritante dos telemóveis, as macas, as correrias, os gemidos de dor, o choro aberto, a morte a cirandar em prado farto…
Um livro de poesia que não faz efeito (prova concreta e literal da inutilidade da mesma) e finalmente um anjo. Um anjo de bata azul – eu conheço-a. E em poucos minutos, a palavra que se esperava havia mais de cinco horas, acontece.

Recorrendo à sabedoria das fábulas, posso dizer que sou mais sol do que vento. Escolho brilhar para que o caminhante tire o casaco em vez de soprar violentamente para lho arrancar. E daí que, repostos os níveis normais de ansiedade, me é dado perceber, numa sala de OBS das urgências de um hospital público, as condições em que trabalham os profissionais de saúde. Local apinhado de macas com gente que paira entre a vida e a morte, sempre a chegar e a partir, a reclamar atenção imediata, decisões rápidas e cuidados intensos.

Depois de ter assistido na sala/corredores antecedentes, a que apelidei de  "sítio do nunca mais", a um sem número de reclamações, (umas mais acaloradas, outras mais contidas, umas desesperadas outras apenas desabafo surdo), contra quantos ali exercem as funções de guardadores de vidas, (e intimamente concordando até com elas), não pude deixar de admirar a concentração, a perícia, a coordenação, o querer fazer evidenciado por aquelas pessoas que, debaixo de uma enorme pressão (adivinhada nos músculos tensos dos rostos), tenta dar resposta a perguntas tão difíceis como as de um corpo doente e as de tantas outras “almas” aflitas.
Um cenário de “guerra” poder-se-ia dizer. Enfim! Onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, mas

Este não é o meu país de cravos.
Ó gente da minha terra quando foi que renunciaste aos jardins de flores verdadeiras?


(imagem: google s/ ind. autoria)

2 comentários:

Benó disse...

As flores verdadeiras também morrem. Umas mais depressa que outras. Belo texto duma verdade tão real.

Maria Rodrigues disse...

Lidia, infelizmente conheço muito bem as salas e corredores de vários hospitais, por ter acompanhado várias vezes os meus paizinhos.
Locais difíceis onde a dor e a esperança andam de mãos dadas.
Espero sinceramente que a situação que a levou ao hospital esteja completamente ultrapassada.
Desejo-lhe um Bom Ano!
Beijinhos
Maria