Um jardim de calcário pode
ser um hospital.
Paredes sólidas sem uma só
janela, o branco demasiado branco da luz artificial, o televisor a cacarejar
continuamente, as conversas cruzadas, as injúrias, o tlintar irritante dos
telemóveis, as macas, as correrias, os gemidos de dor, o choro aberto, a morte
a cirandar em prado farto…
Um livro de poesia que não
faz efeito (prova concreta e literal da inutilidade da mesma) e finalmente um
anjo. Um anjo de bata azul – eu conheço-a. E em poucos minutos, a palavra que
se esperava havia mais de cinco horas, acontece.
Recorrendo à sabedoria das
fábulas, posso dizer que sou mais sol do que vento. Escolho brilhar para que o
caminhante tire o casaco em vez de soprar violentamente para lho arrancar. E
daí que, repostos os níveis normais de ansiedade, me é dado perceber, numa sala
de OBS das urgências de um hospital público, as condições em que trabalham os
profissionais de saúde. Local apinhado de macas com gente que paira entre a
vida e a morte, sempre a chegar e a partir, a reclamar atenção imediata, decisões
rápidas e cuidados intensos.
Depois de ter assistido na
sala/corredores antecedentes, a que apelidei de "sítio do nunca
mais", a um sem número de reclamações, (umas mais acaloradas, outras mais
contidas, umas desesperadas outras apenas desabafo surdo), contra quantos ali
exercem as funções de guardadores de vidas, (e intimamente concordando até com
elas), não pude deixar de admirar a concentração, a perícia, a coordenação, o
querer fazer evidenciado por aquelas pessoas que, debaixo de uma enorme pressão
(adivinhada nos músculos tensos dos rostos), tenta dar resposta a perguntas tão
difíceis como as de um corpo doente e as de tantas outras “almas” aflitas.
Um cenário de “guerra”
poder-se-ia dizer. Enfim! Onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, mas…
Este não é o meu país de
cravos.
Ó gente da minha terra quando
foi que renunciaste aos jardins de flores verdadeiras?
(imagem: google s/ ind. autoria)
(imagem: google s/ ind. autoria)

2 comentários:
As flores verdadeiras também morrem. Umas mais depressa que outras. Belo texto duma verdade tão real.
Lidia, infelizmente conheço muito bem as salas e corredores de vários hospitais, por ter acompanhado várias vezes os meus paizinhos.
Locais difíceis onde a dor e a esperança andam de mãos dadas.
Espero sinceramente que a situação que a levou ao hospital esteja completamente ultrapassada.
Desejo-lhe um Bom Ano!
Beijinhos
Maria
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