segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Figos




 É clara a sensação. Chega a ter contornos perfeitamente definidos. Faces, arestas, vértices... Quase se deixa tocar num ou noutro instante  de maior  sublimação. E a tua própria voz em fundo - esta tarde já passou por mim ou já passei eu por ela. 
Nada te é estranho exceto a impressão de que a Terra parou. Atraiçoada por algum motor ou outro qualquer sistema impulsionador dos seus movimentos, estacou,  silenciosa, avariada... Ficou-te essa paisagem colada aos olhos, essa brisa antiga cruzando a memória que, surpreendida pela repentina cessação de movimento, se mostra confusa quando ao tempo e ao espaço real das vivências que guardou. Quanto ao teor dessas vivências até, o que é ainda mais preocupante. 
Avisaram-te que seria assim, num certo dia, já distante, quando verbalizaste, meio a sério meio a brincar, o receio de perderes a memória e ficares fechada fora de ti, ao frio, afastada dos outros para sempre.  Meio a sério meio a brincar, foi-te dito que isso não era problema, já que, avançando a idade,  a memória recebe ordens para se adaptar às (des)necessidades e passa a ser composta por uns parcos 20% de lembranças. Os 80% que restam, são completamente disponibilizados para esbanjar na criação. Ficaste tranquila quanto ao assunto e esclarecida sobre o sucesso das obras autobiográficas produzidas na idade maior dos autores. Se a ficção é uma mentira que nos conduz à verdade, (quem terá dito isto?) podemos depreender que, se assim o quisermos e bem o fizermos, todos acabaremos verdadeiramente felizes e realizados.
Voltando à sensação que te faz escrever hoje - a memória chega do passado e instala-se no presente tão à vontade como se fosse o agora o seu tempo de sempre. Depois... é isto! Já te aconteceu esta luz, este marulhar das folhas nas árvores quando o vento as atravessa, o campo em final de tarde salpicado de gorjeios e pássaros,  os vindimadores, o vai e vem de cestos, tratores e lagares, o sol morno descendo a ladeira, o zumbido embriagado dos insetos a embater no muro do fim do verão... Já te aconteceu esta tarde, tantas vezes! (Lembrança ou criação?). Já recebeste este ou outro cestinho de figos trazido à porta por mãos amigas. 
    Mas os de agora, são mesmo presente. Foram colhidos hoje. Não há dúvidas. Deliciosos, sem ponta de passado que os azede. 
Irrepetível doçura! 






2 comentários:

Graça Pires disse...

"a memória chega do passado e instala-se no presente tão à vontade como se fosse o agora o seu tempo de sempre."
E foi por isso que escreveste este maravilhoso texto, Lídia. Li e reli. Esteticamente perfeito.
Os figos também parecem deliciosos.
Uma boa semana.
Um beijo.

Graça Sampaio disse...

Lindo de mais!! A memória é uma dimensão do conhecimento humano que me encanta... Ah! E também adoro figos "sem ponta de passado que os azede." Lindo!!