É
clara a sensação. Chega a ter contornos perfeitamente definidos. Faces,
arestas, vértices... Quase se deixa tocar num ou noutro instante de maior sublimação. E a tua própria voz em fundo - esta tarde já passou por mim ou já
passei eu por ela.
Nada te é estranho exceto a impressão de que a Terra parou. Atraiçoada por algum motor ou outro qualquer sistema impulsionador dos seus movimentos, estacou, silenciosa, avariada... Ficou-te essa paisagem colada aos olhos, essa brisa antiga cruzando a memória que, surpreendida pela repentina cessação de movimento, se mostra confusa quando ao tempo e ao espaço real das vivências que guardou. Quanto ao teor dessas vivências até, o que é ainda mais preocupante.
Nada te é estranho exceto a impressão de que a Terra parou. Atraiçoada por algum motor ou outro qualquer sistema impulsionador dos seus movimentos, estacou, silenciosa, avariada... Ficou-te essa paisagem colada aos olhos, essa brisa antiga cruzando a memória que, surpreendida pela repentina cessação de movimento, se mostra confusa quando ao tempo e ao espaço real das vivências que guardou. Quanto ao teor dessas vivências até, o que é ainda mais preocupante.
Avisaram-te que seria
assim, num certo dia, já distante, quando verbalizaste, meio a sério meio a brincar, o receio de
perderes a memória e ficares fechada fora de ti, ao frio, afastada dos outros para sempre. Meio a
sério meio a brincar, foi-te dito que isso não era problema, já que, avançando a
idade, a memória recebe ordens para se adaptar às (des)necessidades e passa a ser composta por uns parcos 20% de lembranças. Os
80% que restam, são completamente disponibilizados para esbanjar na criação. Ficaste tranquila quanto ao assunto e esclarecida sobre o
sucesso das obras autobiográficas produzidas na idade maior dos autores. Se a
ficção é uma mentira que nos conduz à verdade, (quem terá
dito isto?) podemos depreender que, se assim o quisermos e bem o fizermos, todos acabaremos verdadeiramente felizes e realizados.
Voltando
à sensação que te faz escrever hoje - a memória chega do passado e instala-se no presente tão à vontade como se fosse o agora o seu tempo de sempre. Depois... é isto! Já te aconteceu esta
luz, este marulhar das folhas nas árvores quando o vento as atravessa, o campo em final de tarde salpicado de gorjeios e pássaros, os vindimadores, o vai e vem de cestos, tratores e lagares, o sol morno descendo a ladeira, o
zumbido embriagado dos insetos a embater no muro do fim do verão... Já te
aconteceu esta tarde, tantas vezes! (Lembrança ou criação?). Já recebeste este ou outro cestinho de figos trazido à porta por mãos amigas.
Mas os de agora, são mesmo presente. Foram colhidos hoje. Não há dúvidas. Deliciosos, sem ponta de passado que os azede.
Mas os de agora, são mesmo presente. Foram colhidos hoje. Não há dúvidas. Deliciosos, sem ponta de passado que os azede.
Irrepetível doçura!

2 comentários:
"a memória chega do passado e instala-se no presente tão à vontade como se fosse o agora o seu tempo de sempre."
E foi por isso que escreveste este maravilhoso texto, Lídia. Li e reli. Esteticamente perfeito.
Os figos também parecem deliciosos.
Uma boa semana.
Um beijo.
Lindo de mais!! A memória é uma dimensão do conhecimento humano que me encanta... Ah! E também adoro figos "sem ponta de passado que os azede." Lindo!!
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