sábado, 8 de outubro de 2016

Colheitas





      Por este tempo, gosto de ir à Festa das Colheitas, a Vila Verde. É um ritual que cumpro religiosamente todos os anos. Uma peregrinação que agrada à minha assumida ruralidade, vinda não se sabe bem de onde, já que da aldeia só mesmo as memórias de um certo período da infância e as vivências relacionadas com o nomadismo da profissão, que muitas vezes me colocou diante das realidades do mundo rural.

      É, pois, com uma satisfação incontida que percorro as tendas de artesanato, as bancadas de frutas e legumes, os gestos, os jeitos, os rostos de tanta gente ali reunida, entre visitantes, compradores e agricultores, estes, oferecendo o que de melhor a terra lhes concedeu em troca do esforço com o seu amanho. Cestos e cestas em desalinho, galos, galinhas, (gosto das pedreses, não para comer, para ver. Fazem-me lembrar certas blusas da minha avó), coelhos, cabaças, cabacinhas, cabações, cebolas, alhos, marmelos, mel, maçãs, tangerinas, castanhas… - São daqui, as castanhas? – pergunto estranhando-lhes o tamanho - São sim senhora! – Tão grandes? – É das enxertias. Fazem-se para melhorar a qualidade. Quantos quilinhos vai levar?

     As jovens, nos seus trajes regionais, têm a graça e a alegria que as lavradeiras do Minho sempre tiveram, "tristezas não pagam dívidas" e as coisas da vida sempre hão de ter reparo. Detivemo-nos junto destas, atraídos pelos sorrisos e pelo odor convidativo dos chouriços, dispostos em grandes cestos enfeitados com ramos de loureiro. – Leve senhora. É para ajudar o rancho da Lage. Vamos atuar, ali no palco, mais logo. Os senhores são daqui? De Braga? Nós estudamos lá. Gostamos tanto! Alonga-se a conversa, por prazerosa, para além do tempo necessário à escolha dos chouriços para “ajudar o rancho”, o folclórico e o outro que se há de cozinhar logo que o tempo arrefeça.


     Numa outra bancada, a vendedeira puxa-me pelo braço e pergunta-me com um ar, assim, entre o atrevido e o divertido - Está a olhar para a roca? Eu ponho-lha aqui a jeito para tirar uma fotografia, se quiser. Nunca pensei que a minha novela fizesse tanto sucesso. Já foi mais fotografada ela hoje que eu toda a vida!...

   Fotografei-a também a ela, à vendedeira, vendo que também ela se punha "a jeito".

 

1 comentário:

Rogério G.V. Pereira disse...

Não vou a tal feira, que me fica distante
mas não falho uma, destas que se fazem por aqui
Por estranho que te possa parecer vem o mundo rural
oferecer-se ao urbano, pois é aí que se concentra
algum poder de compra que escoe o seu poder de venda
e são frutas, legumes, hortícolas, queijos e fumeiros, doces, bolos artesanais à mistura com todos os tipos de roupa e pequenos enfeites...
Algumas pessoas vestem-se a rigor. Elas, com blusas a dar com as saias e sapatos a dar com as malas. Eles, alguns, põem gravatas...
Vou e não compro nada. Perco-me a ouvir os pregões, a discussão do preço, uma ou outra reclamação e, até, acompanhar a expressão de um reencontro para pôr "as contas em dia", como se soubesse eu ler a linguagem gestual...

A feira é a representação possível da tolerância entre classes sociais muito diferentes. Que o digam os ciganos, que não falham uma feira, destas aqui, à minha beira.