sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

À proa dos tempos


   

 (Salvador Dali)

      O dia de hoje trouxe consigo  um “não-sei-quê” de pungente que me inunda. 
     Até estas luzernas de sol, por entre as nuvens, que deveriam apaziguar, magoam. Impedem a precisão dos movimentos em torno do ver, condicionam a termorregulação do sentir.  E a visão torna-se um exercício agudo e difícil.  Mas, parece-me vislumbrar: uma cascavel a circular livremente pelo tronco de um pensamento intolerante que existe à margem do direito e da razão. Um ideal de couve, nudiúsculo, palpável na aragem fria de um tempo umbroso que chega dos lados do mar. Uma raiva como uma úlcera que se agarra a iniquidades,  que se alimenta de lodos, ódios e outras aberrações com vocação para a crueldade.
    Se ao portador de tais sintomas for permitido alimentar a sua raiva com tudo aquilo de que ela se alimenta, (agressões, provocações, muros, torturas, perseguições e outras covardias do género a que o Poder dá poder), esta ficará tão desmesuradamente gorda, tão inchada e tão fora de controle que, mais dia menos dia, explodirá espalhando devastação e maus cheiros por todo o lado.

    Vai ser o cabo dos trabalhos quando o Bom Senso chegar e quiser limpar tudo outra vez. 


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