quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Eugénio (19 de janeiro 1923 - 13 de junho 2005)










Meu dever de gratidão para com ele, arrasta-me numa contínua homenagem. Tenho perante a sua escrita uma postura de inequívoca reverência. Porquê? Porque foi, ouvindo pela primeira vez o seu Poema à Mãe, pelos meus quinze anos, numa aula de Português, que nunca mais pude arredar-me da Poesia, essa alegria triste de que padeço até à medula, umas vezes, só melancolia, outras, profundo mistério e dádiva. Essa “estranheza” que me tem cativa... Irreversivelmente, para meu sossego, para meu desassossego.








Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"




1 comentário:

Rogério G.V. Pereira disse...

Belo, não estranho
que com tão pouca idade
ele te tenha marcado

o que estranho
é que com a idade que tenho
ele me marque