A Póvoa de
Varzim é mais bela em fevereiro. Ao encanto do mar e das gentes, junta-se o
encanto das palavras, da Literatura. Assim o testemunhei hoje, um dia
magnífico, a luz clara a cair como uma chuva benfazeja que, confesso, me andava
a faltar.
Apaziguada a
"ferida" do SEMPRE TUDO ESTEVE
ESCRITO DESDE SEMPRE depois de ouvir os escritores/poetas, cheios de
"Fé" em que, mais cedo ou mais tarde, saberão criar palavras novas
para nomear as coisas que sempre atormentaram os homens e que essas palavras, as
palavras do “por inventar”, nos levarão a todos à construção de um outro mundo,
de outros mundos novos, foi no meu caso um lenitivo muito reconfortante e
eficaz.
E qual é o
meu caso?- perguntarão os mais curiosos. É mais ou menos assim:
9h da manhã
- Para quê um poema mais?
Final do dia
– Já se escrevia qualquer coisita, não? Ainda não “comi” nada hoje.
TODA A PALAVRA SERÁ SEMPRE UM JOGO POR
INVENTAR e APENAS A CERTEZA DE QUE UM VERSO NÃO SALVARÁ
NINGUÉM vieram complementar a minha reconciliação com a escrita, já que eu
sou daquelas pessoas que escreve com as palavras, mas muitas vezes contra elas.
(Em maiúsculas, temas das
mesas a que assisti)
***
Do
meu caderno de notas:
A
linguagem não serve para dizer o mundo, mas para o construir e isso é difícil
porque o poeta é obrigado a usar as palavras dos outros, outras línguas na sua boca, como no poema de Nuno Júdice:
[…]
E
volto a olhar a minha língua ao espelho. «É a língua do Camões, a língua do
Pessoa…»
E
sinto um sabor estranho na minha boca, ao saber que tenho lá dentro duas
línguas, além da minha.
E se
eu bater com a língua no céu da boca? É a minha língua, ou é a do Camões, ou é
a do Pessoa, que vem bater no céu da minha boca?
E
agarro na língua, para ver qual é a minha, e arrancar da minha boca as línguas
que não me pertencem, e devem estar ressequidas de um e de mais séculos, se for
e a do Camões e a do Pessoa.
É que
eu não quero ter a maior língua do mundo; quero, apenas, que a minha língua
esteja quietinha, sem complexos de grandeza, no lugar em que preciso dela para
ir bater no céu da boca, sem ter de empurrar para o lado as línguas do Camões,
do Pessoa, ou as dos outros duzentos milhões que fazem com que a minha língua
seja a maior do mundo.


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