(imagem Agnieszka Motyka)
Vivemos
cada vez mais longe uns dos outros, rodeados pelo crescente desconhecimento que
temos dos outros e do desconhecimento que os outros têm de nós. Tão longínquos
e anónimos, somos, até mesmo os mais próximos.
Se
alguns vivem felizes no alheamento de tudo isto, sem que nada lhes perturbe os passos pequeninos ou os grandes passos do quotidiano, outros há que, no meio da
multidão, veem por instantes iluminar-se esse espaço imensurável de desumanização. Uma luz
efémera, como um fósforo que se acende e logo morre; claridade apenas o tempo
bastante de ser mágoa ou sombra ou presságio…
Alguns,
outros, é debaixo do sol que sabem, dessa distância, todas as feições, todas as divisões, como se a lonjura fosse uma casa vazia, uma rua em ruínas onde vozes e ecos fervilham e
se confundem e se propagam pelas artérias, cordas sensíveis de um corpo ou de uma cidade em dispersão. Um lugar onde se cruzam pessoas sempre apressadas, mesmo que sem terem aonde ir, pessoas que discutem,
gesticulam, riem, gritam, sonham, choram… À primeira vista dir-se-ia, umas com as
outras, umas pelas outras. Mas não.
Estes
últimos, adversos ao canto da ilusão, deitam-se e levantam-se com a solidão,
estendida ao longo de todas as horas diurnas e noturnas dos relógios. Cumprem,
rigorosamente, o pacto que assinaram com a tristeza: ela não reage contra a negligência
a que é votada e eles, por sua vez, fingem, fingem não sofrer, não saber que sofrem. Para que não os julguem loucos, todos os outros, felizes, dentro da sua
alegria, mais ou menos, obscura.

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