(imagem: pesquisa google s/ Ind. autoria)
a mesa coxa. vacilante.
o papel pouco de tanto
verso rejeitado.
está bem assim o poema.
não lhe mexas. não abanes
a mesa
que se desintegram os vocábulos [como os dias]
tão plenos de: vento.
rejeitas do pensamento ramos secos
da memória
passos ocos da distância
quem diria?...
eu não diria que fossemos de súbito
tão sós e nus e despojados
no rumor incendiado de um
verso comum
não diria…
se quiseres posso fazer
brotar para ti
uma caligrafia de sons vivos:
um sol, uma chama,
um potro de fogo a
percorrer a pele...
posso até encher entre nós
os espaços em branco [ou
em negro] de estrelas
de vasos de amores… ou de
açucenas, se preferires
posso, se quiseres…
mas quero mais que o poema me desencaminhe
e me leve como num sonho
até às teclas mais altas
da melodia.
a estas horas tropeçamos
já no espanto
de podermos ainda
espantar-nos com o
fascínio da matéria indecifrável entre mãos
matéria que a si própria constrói,
a si própria nutre
deixando-nos tão sós e nus e despojados
à mercê de um desamparo inesperadamente
claro
e clarificador.
e clarificador.

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