quinta-feira, 16 de março de 2017

Está bem assim o poema



 (imagem: pesquisa google s/ Ind. autoria)



a mesa coxa. vacilante.
o papel pouco de tanto verso rejeitado.
está bem assim o poema.
não lhe mexas. não abanes a mesa
que se desintegram os vocábulos [como os dias]
tão plenos de: vento.

rejeitas do pensamento ramos secos da memória
passos ocos da distância
quem diria?...
eu não diria que fossemos de súbito
tão sós e nus e despojados
no rumor incendiado de um verso comum
não diria…

se quiseres posso fazer brotar para ti
uma caligrafia de sons vivos: um sol, uma chama,
um potro de fogo a percorrer a pele...
posso até encher entre nós
os espaços em branco [ou em negro] de estrelas
de vasos de amores… ou de açucenas, se preferires
posso, se quiseres…
mas quero mais que o poema me desencaminhe
e me leve como num sonho até às teclas mais altas 
da melodia.

a estas horas tropeçamos já no espanto
de podermos ainda espantar-nos com o
fascínio da matéria indecifrável entre mãos
matéria que a si própria constrói, 
a si própria nutre
deixando-nos tão sós e nus e despojados
à mercê de um desamparo inesperadamente claro
e clarificador.


 


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