quarta-feira, 24 de maio de 2017

Alice Vieira - "Os armários da noite"

 Litografia de Montserrat Gudiol



1

o perigo de acumular silêncios em
corredores vazios      ou
qualquer outro vício que a
vida nos traz


é que depois as palavras
morrem à toa
sem flores      sem cânticos      sem
missa do sétimo dia


e ninguém sabe para que serviram
se mataram quem não deviam      ou
se ficaram entre
os intervalos do sono      fazendo-nos
tropeçar nelas como em
chinelos velhos      roupa da véspera
peças de um puzzle que nunca
tivemos tempo de acabar


por vezes surge-nos mesmo a tentação de
as tapar com os lençóis brancos das arcas
onde as avós nos organizavam o futuro
e que nunca usávamos porque

eram de linho      e o linho
dava muito trabalho a engomar
mas rapidamente entendíamos que
também as palavras davam muito trabalho a desdobrar
na nossa língua      e
embora uma ou outra ainda tentasse brilhar
acabavam sempre por encontrar o caminho de saída
onde o rasto dos crimes perfeitos as esperava


sobre elas se abatem
os pesadelos das manhãs de domingo      e
ninguém se lembra de lhes arranjar
significados para o que deixaram para trás
neste estranho país onde continuamente as esperamos
no cais das mercadorias fora de prazo


depois tudo acaba
ninguém lhes coloca a pedra
com dia de nascimento e morte
ninguém procura herdeiros      ou
calcinados despojos


cavalos de guerra abandonados
na terra de ninguém


Alice Vieira (2014:p.13), Os armários da noite



 

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