Talvez
amanhã possas sorrir para além da elasticidade da boca. Talvez amanhã o “lado
positivo” – é assim que dizes, não é? - possa ter raízes dentro dessas palavras
inquietas que temperas com umas pedrinhas de ternura. A ternura é ainda uma
corola amarela de raios luminosos que nos cercam, persistentes.
Talvez
amanhã possas sorrir como outrora. Não como hoje, com esse sorriso
desencontrado do olhar. Eu tenho medo de sorrisos perdidos, atemorizados, sorrisos
sem alegria para lá do bruxulear de lábios, a existirem só porque faltam
desesperadamente ao aqui e agora que somos.
Flutua
como nuvem sob um teto de vidro, a falta de cor do teu sorriso. E chove no cinzento. Chove
torrencialmente no meu sono mudo. Mutilada evasão! E penso, irmã do vento que me tornei, onde terei deixado ficar o meu pé de laranja lima, verdejante e lindo
que era. Agora, apenas esta atenção inesgotável, inevitável que me prende a tudo, a todas as coisas, das mais ínfimas às outras que nem sei medir, de me não caberem na lonjura
do peito.
(imagem: Rene Magritte)
1 comentário:
Quanta nostalgia ... é tão doloroso quando os sorrisos estão desencontrados do olhar, eu sei, pois vivi e senti essa amargura.
Beijinhos
Maria
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