terça-feira, 9 de maio de 2017

Talvez amanhã





Talvez amanhã possas sorrir para além da elasticidade da boca. Talvez amanhã o “lado positivo” – é assim que dizes, não é? - possa ter raízes dentro dessas palavras inquietas que temperas com umas pedrinhas de ternura. A ternura é ainda uma corola amarela de raios luminosos que nos cercam, persistentes.
Talvez amanhã possas sorrir como outrora. Não como hoje, com esse sorriso desencontrado do olhar. Eu tenho medo de sorrisos perdidos, atemorizados, sorrisos sem alegria para lá do bruxulear de lábios, a existirem só porque faltam desesperadamente ao aqui e agora que somos.
Flutua como nuvem sob um teto de vidro, a falta de cor do teu sorriso. E chove no cinzento. Chove torrencialmente no meu sono mudo. Mutilada evasão! E penso, irmã do vento que me tornei, onde terei deixado ficar o meu pé de laranja lima, verdejante e lindo que era. Agora, apenas esta atenção inesgotável, inevitável que me prende a tudo, a todas as coisas, das mais ínfimas às outras que nem sei medir, de me não caberem na lonjura do peito.  



(imagem: Rene Magritte)

1 comentário:

Maria Rodrigues disse...

Quanta nostalgia ... é tão doloroso quando os sorrisos estão desencontrados do olhar, eu sei, pois vivi e senti essa amargura.
Beijinhos
Maria