alguma coisa há de
inalterável
no silêncio quente da tarde,
uma afirmação de permanência
confirmada pela toada
tranquila
dos pardais.
detenho-me numa espécie de
devoção
renascida, quase sólida,
quase atenta…
bem sei, estou sempre a
falar de pardais,
não precisas de mo dizer de
novo.
oiço-lhes o canto a embater
no ar, inquebrável
durante todo o dia.
como não
falar de pardais
como ignorar seus diálogos
orfeónicos
apetecidos até ao tinir extremo
da vibração
se são do silêncio a única fala?
fico aqui. poderia banhar-me
de vozes, de livros, de
palratórios…
a cidade está tão cheia de vaidades:
planetas, cometas, estrelas
há palavras por todo lado:
algumas mais reservadas
e humildes,
outras inchadas de balofa
grandeza,
retórica recalcada, decalcada.
fico longe.
tenho de atrasar o meu encontro
com a plasticidade de tudo
o que violentará um dia o
meu ser incauto.
por ora, coloco a salvo a veracidade
das mãos.
desejo, desejarei até ao fim,
a alvura do verso
livre dos projetores que o
desfiguram.
desejo crer na palavra com a
mesma cegueira
com que creio na alegria dos frutos
que coram
a cada beijo do sol.

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