domingo, 2 de julho de 2017

Fico aqui




alguma coisa há de inalterável
no silêncio quente da tarde,
uma afirmação de permanência
confirmada pela toada tranquila
dos pardais.
detenho-me numa espécie de devoção
renascida, quase sólida, quase atenta…
bem sei, estou sempre a falar de pardais,
não precisas de mo dizer de novo.
oiço-lhes o canto a embater
no ar, inquebrável
durante todo o dia.
como não falar de pardais
como ignorar seus diálogos orfeónicos
apetecidos até ao tinir extremo da vibração
se são do silêncio a única fala?

fico aqui. poderia banhar-me
de vozes, de livros, de palratórios…
a cidade está tão cheia de vaidades:
planetas, cometas, estrelas
há palavras por todo lado:
algumas mais reservadas e humildes,
outras inchadas de balofa grandeza,
retórica  recalcada, decalcada.
fico longe.
tenho de atrasar o meu encontro 
com a plasticidade de tudo
o que violentará um dia o meu ser incauto.
por ora, coloco a salvo a veracidade das mãos.
desejo, desejarei até ao fim, a alvura do verso
livre dos projetores que o desfiguram. 
desejo crer na palavra com a mesma cegueira
com que creio na alegria dos frutos
que coram
a cada beijo do sol.



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