quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Vertigem



caminhava junto ao rio. há quanto tempo não o fazia?
e, como se pela primeira vez, deixou descansar os olhos 
no aprumo dos salgueiros vertidos no vidro da água.
sorriu surpreendida. depois de tanto caminho,
não esquecera o deslumbramento.
olhava tudo outra vez e tudo novidade ainda.
lembrou-se daquela mulher velha,
à janela do comboio, no poema da Filipa Leal:
- Dormiu bem?[…]
Parecia-lhe o sono uma perda de tempo.
- E ainda agora passámos por um campo de abóboras.
repentinamente teve de interromper  a marcha…
uma vertigem. durou tão-só o tempo escasso de um pestanejar:
era dela o corpo mergulhado em aprumo, de cabeça para baixo.
o cabelo, algas, tateando o fundo,
a planta dos pés, como os troncos dos salgueiros,
tangendo por dentro a superfície da água, sem a romper.
recompôs-se rapidamente, sentindo-se respirar ainda, por pulmões,
a cabeça firme sobre os ombros,
[nos cabelos, nenhuma rã, nenhum junco roçando a cintura,
nenhum peixe ancorado na concha da mão…],
e os pés, na extremidade oposta do corpo, retomavam a marcha
agraciados pela solidez do piso, pela geografia plana do percurso.





(em itálico: versos do poema "Lisboa-Porto" in Vem à Quinta-Feira, (2016:p.16), Filipa Leal)


(imagem:Daniel Gerhartz)

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