quarta-feira, 20 de setembro de 2017

um arco e uma flecha




será bastante a vida sonhada
para escrever um poema?







um arco e uma flecha
e onde o alvo?
a pólis move-se em piloto automático,
os governadores e seus servos governam-se
com mãos mecânicas.
a tudo a tecnologia responde
exceto à razão dos sempre ofendidos.

os tiranos, sofistas de agora, usam gravata de seda, botões de punho
vão à missa, citam poetas
em deslumbramento enjoado. dia a dia,  mais sábios na arte de tiranizar.

os soldados não são contra
nem a favor. matam e morrem
emboscados entre a verdade e a mentira.
a mentira e a verdade,
uma amalgama febril tingida de sangue.

a grei não constrói 
nem destrói. desconstrói-se.
o seu destino é balir.
quotidianamente quebra a pedra
que, no ventre sumido, 
guarda o pão e a água. 
pela penúria se faz mui mansa (ou talvez não).
à noite, é a bandeira da subsistência
que lhe cobre os sonhos
envergonhados.

o perfume das flores, as trovas antigas,
a voz dos pássaros...
as flautas… quem dá por elas?
falemos de amor. Visto isto, falemos de amor:
eu e tu brincamos a apanhar estrelas num outro céu
ensinamo-nos mutuamente a respirar 
dentro do desassossego dos poemas que
vêm acender-nos a lua. assim alumiados
talvez nos salvemos 
dos buracos negros do firmamento.






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