quarta-feira, 25 de outubro de 2017

já cresceram tudo, as idades.




a luz baça e lenta
crestou o verde das ervas,
apagou a graça pueril
das flores silvestres
e a inocência… declínio,
ave em voo desarticulado
sobre o amor e o riso das cascatas,
a ternura a caber inteira
na pequenez dos verbos
descrevendo as bocas.
ah, mas o fulgor desta voz
que detém todos os nomes,
que os inscreve repetidamente
nas paredes do cérebro,
livres de cinzas, brancas de cal,
voz que pousa como pássaro
em ombros cansados
e fala numa língua desconhecida
de um mundo, outro
a estalar no peito como flor de aurora.
suas visões, seus preceitos, suas liras
não doem, não ardem, amanhecem apenas.
ao acordar vemos
que já cresceram tudo, as idades.
já não é alegórica a solidão que desce
obliquamente ao encontro do mar.
detém-se ainda enternecida,
aqui e ali a contemplar
os antigos lugares da urze, da giesta...
vai depositando neles
a renda, o linho que vestiram um coração
despojado e nu no ocaso
como no nascente.
já cresceram tudo, as idades
e os sonhos, estrelas cadentes.
os sonhos e as estrelas...
pacíficos. pacíficas.






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