quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A personagem


Não sei quem ela é. Essa que dá voz ao texto, aí em baixo. 
Não sei sequer se será uma ela ou um ele, não sei! 
Sei apenas que me “aparece”, ultimamente, com frequência. 
Forte, afirmativa, com uma nitidez, facilmente legível. 
Deixá-la-ei amadurar e, se for caso disso, 
se vingar, pela audácia e persistência, 
dar-lhe-ei um nome e construirei um conto 
com todas as letras com que se constrói uma casa, 
para lhe dar abrigo.
 
 Biografia

Voltas… Tudo no mundo são voltas, uma dança! Uns entram outros saem como manda o mandador. Também entrei e aguardo o silêncio do acordeão, dos cavaquinhos, dos adufes, para suster os passos. Por agora, passo os dias nas imediações do deserto, às portas do paraíso. De manhã preparo a resiliência e a devoção para amparar convulsões brônquicas, desfalecências crónicas, arritmias, desconsertos respiratórios, restos de excreções noturnas. Uso as ferramentas todas que possuo e invento as que não possuo, para arrumar o quotidiano. Não sossego enquanto não estiver tudo bem arejado e limpo. Faço perguntas (às vezes, desesperadas) aos anjos que, ocupados a posar para os pintores, nunca me ouvem, nunca me respondem.



Caminho, à tarde, nas redondezas da casa ou pelos prados do alheamento. É quando convivo com cursos de água, brisas, ervas; quando bebo de fontes esquecidas e colho alguns frutos das árvores para alimentar nostalgias. À noite, ouço música, escrevo, leio. Depois regresso à minha nuvem. Penso nas musas de Homero ou Virgílio e quase sempre concluo que eram tantas e tão infalíveis que nunca mais ninguém, como eles, escreveu tão completamente as incompletudes dos homens. Desabituei-me de ligar a TV e por isso não sei já como (des)anda o mundo, nem por que os cegos não veem o que veem e os loucos não entendem o que entendem…

De resto: nasci, cresci e fui encolhendo na proporção exata em que ia descortinando miragens, os lugares do Sonho. Sou agora da minha altura e não da altura das miragens que oscilam, mentirosas, na frente dos meus olhos. O Sonho, esse, tem muita gente dentro, gente real, sóbria; gente desatenta que adormece e acorda ao ritmo alucinado de relógios doidos; gente que não esconde a intolerância à poesia, essa “coisa” estranha, sem remédio, de que padeço, há tempo de mais; gente muito executiva, produtiva, sem pachorra para utopias; gente que tenta transplantar-se fervorosamente para lugares artificialmente iluminados, lugares de nadas onde multidões se esgotam, dia a dia, em busca de tudo o que não lhes falta. Alienadas, desvalorizam o que falta verdadeiramente, distanciam-se de si maquinalmente; gente em que deixei de acreditar; gente que me deixa só, a ler-lhes, com voz firme, os sonhos que nunca irão sonhar por falta de talento ou de interesse; gente com todo o direito de ser o que é... Como eu, de ser o que sou.

Vivo, assim, o que me é permitido viver e o que vou conquistando à sorte pela insubordinação das mãos, até que a morte venha, como sempre vem, acabar com todas as dignidades, as coroas, os ceptros, as manias, os delírios… 
A morte é uma coisa muito definitiva, a coisa mais definitiva de todas as coisas definitivas que conheço.

É tempo de regressar. Desço da minha nuvem e vejo que desfaleceu totalmente a chama na lareira. Está frio!



                                                                                                                                               (Lídia Borges)


 


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