Não
sei quem ela é. Essa que dá voz ao texto, aí em baixo.
Não sei sequer se será uma ela ou um
ele, não sei!
Sei apenas que me “aparece”, ultimamente, com frequência.
Forte,
afirmativa, com uma nitidez, facilmente legível.
Deixá-la-ei amadurar e, se for
caso disso,
se vingar, pela audácia e persistência,
dar-lhe-ei um nome e construirei um conto
com todas as letras com que se constrói uma casa,
dar-lhe-ei um nome e construirei um conto
com todas as letras com que se constrói uma casa,
para lhe dar abrigo.
Biografia
Voltas… Tudo no mundo são voltas, uma dança! Uns
entram outros saem como manda o mandador. Também entrei e aguardo o silêncio do
acordeão, dos cavaquinhos, dos adufes, para suster os passos. Por
agora, passo os dias nas imediações do deserto, às portas do paraíso. De manhã
preparo a resiliência e a devoção para amparar convulsões brônquicas, desfalecências crónicas, arritmias, desconsertos respiratórios,
restos de excreções noturnas. Uso as ferramentas todas que possuo e invento as
que não possuo, para arrumar o quotidiano. Não sossego enquanto não estiver
tudo bem arejado e limpo. Faço perguntas (às vezes, desesperadas) aos anjos
que, ocupados a posar para os pintores, nunca me ouvem, nunca me respondem.
Caminho, à tarde, nas redondezas da casa ou pelos
prados do alheamento. É quando convivo com cursos de água, brisas, ervas;
quando bebo de fontes esquecidas e colho alguns frutos das árvores para
alimentar nostalgias. À noite, ouço música, escrevo, leio. Depois regresso à
minha nuvem. Penso nas musas de Homero ou Virgílio e quase sempre concluo que
eram tantas e tão infalíveis que nunca mais ninguém, como eles, escreveu tão
completamente as incompletudes dos homens. Desabituei-me de ligar a TV e por
isso não sei já como (des)anda o mundo, nem por que os cegos não veem o que
veem e os loucos não entendem o que entendem…
De resto: nasci, cresci e fui encolhendo na proporção
exata em que ia descortinando miragens, os lugares do Sonho. Sou agora da minha
altura e não da altura das miragens que oscilam, mentirosas, na frente dos meus
olhos. O Sonho, esse, tem muita gente dentro, gente real, sóbria; gente
desatenta que adormece e acorda ao ritmo alucinado de relógios doidos; gente
que não esconde a intolerância à poesia, essa “coisa” estranha, sem remédio, de
que padeço, há tempo de mais; gente muito executiva, produtiva, sem pachorra
para utopias; gente que tenta transplantar-se fervorosamente para lugares
artificialmente iluminados, lugares de nadas onde multidões se esgotam, dia a
dia, em busca de tudo o que não lhes falta. Alienadas, desvalorizam o que falta
verdadeiramente, distanciam-se de si maquinalmente; gente em que deixei de
acreditar; gente que me deixa só, a ler-lhes, com voz firme, os sonhos que
nunca irão sonhar por falta de talento ou de interesse; gente com todo o
direito de ser o que é... Como eu, de ser o que sou.
Vivo, assim, o que me é permitido viver e o que vou
conquistando à sorte pela insubordinação das mãos, até que a morte venha, como
sempre vem, acabar com todas as dignidades, as coroas, os ceptros, as manias,
os delírios…
A morte é uma coisa muito definitiva, a coisa mais
definitiva de todas as coisas definitivas que conheço.
É tempo de regressar. Desço da minha nuvem e vejo que
desfaleceu totalmente a chama na lareira. Está frio!
(Lídia Borges)

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