domingo, 4 de fevereiro de 2018

"À roda da saia"


Hei de voltar a este livro -  disse eu.

E cá estou com um excerto de um parecer (breve) que resultou da minha leitura da obra.

[...]

Com efeito, neste trabalho de Maria Isabel Fidalgo, somos confrontados, por um lado, com uma íntima aproximação a um  universo transcendente, por outro lado, com um sentido de realidade objetiva, apostada na “transformação” do mundo, por meio da sublimação da palavra pensada. Uma palavra que nos leva na senda dos afetos, dos sentires, dos laços familiares, das memórias, através de imagens que se desenrolam em torno de uma saia. Uma saia que é, simultaneamente, mote e símbolo e que, pela correspondência evidente ao feminino, deixa antever a intenção preconcebida de legitimar a mulher como pilar basilar da nossa organização social ainda hoje, tendencialmente, matriarcal. Estamos perante uma poesia que é maturidade sim, mas ainda espanto – Que idade temos quando perdemos a faculdade do espanto, senão a da morte? – questiona Manuel António Pina numa entrevista. Uma poesia  que amplia  olhares, fazendo eclodir de cada verso um apelo à reflexão, à imaginação, à recriação, à fruição… Afinal, tudo quanto se constitui matriz e essência do texto literário.

elas

as mães têm braços enormes
e cantam para aclarar os sonhos.
às vezes não dormem e escutam vigilantes
a respiração do silêncio nas noites solitárias.
acalmam o escuro.
partem, mas ficam à superfície
das candeias, brancas como lírios.
rejuvenescem e regressam imaculadas
a semear música. São jovens como a lua
atenta ao corpo das raparigas.
o resto está escondido no pó.

Maria Isabel Fidalgo

(foto: "roubada" na pág. do Facebook, a Maria Isabel Fidalgo)