Hei de voltar a este livro - disse eu.
E cá estou com um excerto de um parecer (breve) que resultou da minha leitura da obra.
[...]
Com efeito, neste trabalho de Maria Isabel Fidalgo, somos confrontados, por um lado, com uma íntima aproximação a um
universo transcendente, por outro lado, com um sentido de realidade objetiva, apostada
na “transformação” do mundo, por meio da sublimação da palavra pensada. Uma
palavra que nos leva na senda dos afetos, dos sentires, dos laços familiares, das
memórias, através de imagens que se desenrolam em torno de uma saia. Uma saia
que é, simultaneamente, mote e símbolo e que, pela correspondência evidente ao
feminino, deixa antever a intenção preconcebida de legitimar a mulher como pilar
basilar da nossa organização social ainda hoje, tendencialmente, matriarcal. Estamos perante uma poesia que
é maturidade sim, mas ainda espanto – Que
idade temos quando perdemos a faculdade do espanto, senão a da morte? – questiona
Manuel António Pina numa entrevista. Uma poesia que
amplia olhares, fazendo eclodir de cada
verso um apelo à reflexão, à imaginação, à recriação, à fruição… Afinal, tudo quanto
se constitui matriz e essência do texto literário.
elas
as mães têm braços enormes
e cantam para aclarar os sonhos.
às vezes não dormem e escutam vigilantes
a respiração do silêncio nas noites solitárias.
acalmam o escuro.
partem, mas ficam à superfície
das candeias, brancas como lírios.
rejuvenescem e regressam imaculadas
a semear música. São jovens como a lua
atenta ao corpo das raparigas.
o resto está escondido no pó.
Maria Isabel Fidalgo
(foto: "roubada" na pág. do Facebook, a Maria Isabel Fidalgo)
