quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Velhos ou quase velhos


(Arcada, Braga - foto de Bruno Macedo)


Caminham devagar pelas ruas
enrolados em grossos casacos,
as mãos encolhidas nos bolsos
e tempo de sobra nos passos.

São velhos uns
e os outros quase velhos.
A “bica” tomam-na por ali
nos sítios do costume.
Passam os olhos a correr
pelos títulos dos jornais:
isto é sempre a mesma coisa!
Para os pobres, anda sempre 
o mundo torto.
Vão chegando uns e outros.

Juntam-se em bandos
em qualquer esquina menos fria
ou debaixo da “Arcada”,
nas margens do chafariz
vigiados de perto pelos pombos.

O Sol, de passagem
amaina-lhes o frio do corpo.
Falam de futebol e de outros nadas.
Riem alto, saudosos de risos,
se uma piada se abeira, pertinente.
E são outra vez meninos
a quem negam o pião.
  
Dali a pouco
hão de regressar a casa,
abeirar-se do lume, melancólicos,
ó homem, estás a olhar p’ra ontem?
come lá a sopa enquanto está quente.

São todos velhos ou quase velhos,
recebem a pensão de reforma,
o subsídio de desemprego
ou o de outra miséria qualquer,
um lugar num banco de jardim,
numa esquina,
um inverno para carregar aos ombros.

É assim que lhes ensinam, 
o caminho mais curto para a morte.