segunda-feira, 23 de abril de 2018

(Um) LIVRO


         AS CIDADES E OS SINAIS. 3.

“O homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo do caminho pergunta-se como será o palácio real, o quartel, o moinho, o teatro, o bazar. Em todas as cidades do império cada um dos edifícios é diferente e disposto segundo uma diferente ordem: mas assim que o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar para o meio daquela pilha de pagodes e trapeiras e celeiros, seguindo os gatafunhos de canais hortas lixeiras, distingue logo quais são os palácios dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a estalagem, a prisão, a judiaria. Assim – há quem diga –, confirma-se a hipótese de que cada homem traz na mente uma cidade feita só de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, e são as cidades particulares que a preenchem.
Não é assim em Zoé. Em todos os lugares desta cidade se poderia ora dormir, ora fabricar arneses, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, interrogar os oráculos. Qualquer teto em pirâmide poderia cobrir tanto o lazareto dos leprosos como as termas das odaliscas. O viajante anda, anda e só tem dúvidas: não consegue distinguir os pontos da cidade, até os pontos que ele tem distintos na mente se misturarem. Daí infere isto: se a existência em todos os momentos é toda ela a mesma, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. Mas porquê então a cidade? Que linha separa o dentro do fora, o troar das rodas do uivo dos lobos?”

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, (edição 2015, Coleção Essencial)




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