AS CIDADES E OS SINAIS. 3.
“O homem que
viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo do caminho pergunta-se
como será o palácio real, o quartel, o moinho, o teatro, o bazar. Em todas as
cidades do império cada um dos edifícios é diferente e disposto segundo uma diferente
ordem: mas assim que o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar
para o meio daquela pilha de pagodes e trapeiras e celeiros, seguindo os
gatafunhos de canais hortas lixeiras, distingue logo quais são os palácios
dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a estalagem, a prisão, a
judiaria. Assim – há quem diga –, confirma-se a hipótese de que cada homem traz na mente uma cidade feita só de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma,
e são as cidades particulares que a preenchem.
Não é assim
em Zoé. Em todos os lugares desta cidade se poderia ora dormir, ora fabricar arneses,
cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, interrogar os
oráculos. Qualquer teto em pirâmide poderia cobrir tanto o lazareto dos
leprosos como as termas das odaliscas. O viajante anda, anda e só tem dúvidas: não
consegue distinguir os pontos da cidade, até os pontos que ele tem distintos
na mente se misturarem. Daí infere isto: se a existência em todos os momentos é
toda ela a mesma, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. Mas porquê
então a cidade? Que linha separa o dentro do fora, o troar das rodas do uivo
dos lobos?”
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, (edição 2015, Coleção Essencial)

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