terça-feira, 26 de junho de 2018

Poema Não



Quem me empresta
um dicionário de insultos?
Talvez em o consultando
possa abranger o veneno
que verte dos poros 
de corpos de poetas
de poesia nenhuma.

O mundo está cheio deles. 
São pessoas pequeníssimas 
(Lilliput em fundo
e os saltos altos titubeantes
nos pés rasteiros),
seres tristíssimos
a quem o branco ofende
e ofusca, claramente.

Até a lua que é feiticeira
lhes nega a pálida luz
de um luar mas, como ela,
têm fases [outras]: 
de raiva minguante, 
de ódio novo à boca cheia,
de rancor sempre em quarto crescente...
Pobres deles!

Encarnam, por vezes,
em palcos improvisados, o papel
da velha e matreira raposa:
estão verdes não prestam,
com La Fontaine na plateia
a rir estridentemente
de tão ridícula comédia.

Deixá-los ganir em seus sonhos 
de espuma verdolenga.
Devolvo rapidamente o dicionário
como se me ardesse nas mãos.
Desinfeto-as com sumo de limão
em abundância
e para os olhos utilizo o soro 
da indiferença, a frio
não vá o ultraje,
por contágio,
tomar o meu coração
e ser confundido por aí
com arte de retórica
ou, pior ainda, com Poesia.



(Ressalvo a obra, interessante, por sinal,
 de Sérgio Luís de Carvalho, na imagem)