Quem me empresta
um dicionário de insultos?
Talvez em o consultando
possa abranger o venenoque verte dos poros
de corpos de poetas
de poesia nenhuma.
O mundo está cheio deles.
São pessoas pequeníssimas
(Lilliput em fundo
e os saltos altos titubeantes
nos pés rasteiros),
seres tristíssimos
a quem o branco ofende
e ofusca, claramente.
Até a lua que é feiticeira
lhes nega a pálida luz
de um luar mas, como ela,
têm fases [outras]:
de raiva minguante,
de ódio novo à boca cheia,
de rancor sempre em quarto crescente...
Pobres deles!
Encarnam, por vezes,
em palcos improvisados, o papel
da velha e matreira raposa:
estão verdes não prestam,
com La Fontaine na plateia
a rir estridentemente
de tão ridícula comédia.
Deixá-los ganir em seus sonhos
de espuma verdolenga.
Devolvo rapidamente o dicionário
como se me ardesse nas mãos.
Desinfeto-as com sumo de limão
em abundância
e para os olhos utilizo o soro
da indiferença, a frio
não vá o ultraje,
por contágio,
tomar o meu coração
e ser confundido por aí
com arte de retórica
ou, pior ainda, com Poesia.
(Ressalvo a obra, interessante, por sinal,
de Sérgio Luís de Carvalho, na imagem)