(óleo sobre tela 90X60cm, de minha autoria)
Leio que o conceito de ruralidade
se aproxima, em termos técnicos e científicos, a um conjunto de fenómenos
sociais de um meio rural e são suporte de identidade.
Fico a pensar no que costumo responder, quando questionada
sobre uma certa tendência para os temas rurais que emergem da minha pintura e
da minha poesia (se pintura e poesia é o que faço). E o que costumo responder,
quase a brincar (estou sempre a meio caminho do brincar), é que tenho saudade da
minha intrínseca ruralidade que nunca foi. Nasci e vivi sempre na cidade, porém,
criança pequena acompanhava a Rosa quando ela ia visitar a família a casa ou
ajudar em tempos de maior azafama nos trabalhos do campo. Eu colava-me às saias
da moça e não a largava mais. Queria ir com ela, sempre. Às vezes ia, se a avó estiva
bem-humorada.
A casa típica da aldeia minhota, aberta ao exterior, não
era bem uma casa, era a extensão dos cheiros, dos sabores, dos sons do campo,
da liberdade de brincar, de fazer o que queria. A Rosa estendia a mão para um
ramo, acima da cabeça colhia duas “maçães”. – Pega - Eu trincava uma e ela outra. E ria, não sei se
da minha estranheza, pouco habituada a ver a fruta fora das fruteiras. [Pictórica
a imagem. Devo tê-la trazido de algum quadro ou de algum livro].
Segundo os meus desfocados registos mnemónicos, terá sido
na robusta mesa de madeira da cozinha escura, onde o enorme fogão a lenha
reinava, que vi isso, aí em cima, representado na tela. Enquanto pintava enchi-me
de saudade da casa que não era minha, da Rosa, dos animais, das vozes que
entoavam cantigas alegres na vindima, na desfolhada e até dos gansos, dos quais
eu fugia a sete pés porque tinham o triste hábito de me perseguir.
Continuo a ler:
“… a ideia de ruralidade
está relacionada com as representações que as pessoas constroem, acerca de si
mesmas e transcende o facto de se viver ou não numa zona rural…”
Visto isto, está visto e explicado o modo como, por vezes,
me sinto “de fora” no espaço onde sou. Eventualmente, devia ter nascido lá para
S. Pedro de Merelim como a Rosa.
