I
E nevou mesmo.
Plumas de garça esvoaçantes
a atravessar o nevoeiro e a penumbra,
a pousar no parapeito noturno da janela.
De manhã, havia penas soltas
que a chuva ainda não desfizera
nas ruas, nos telhados, nos relvados...
As pessoas passavam
embrulhadas em agasalhos,
indiferentes ao cenário,
sem novidade nem encanto, tão comum e insípido, para os nativos.
Mas eu que acuso em todas as análises
elevados défices de branco
no sangue, na alma, no temperamento,
vejo-me anoitecer
à medida que a chuva rasga
a toalha posta para o festim
devido aos olhos e à lira.
II
A noite chegou tão depressa
que nem deu para enxergar
o rosto ao dia.
Reparo agora que este esmoreceu
debaixo do uivo de um novembro
feito lonjura, chumbo e chuva.
Contra tudo isto uma estrelinha
ergue-se, brilhante,
mais forte que a noite,
mais forte que a neve, a chuva, a lonjura...
Mais forte que toda a escuridão.
( Foto minha, agora, 16:16h, Fredrikstad, 29/11/2018)
