quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Margaridas

(sem Ind. autoria)


I
Dantes eu era mais feliz,
costumavas dizer.
Depois emendavas:
talvez não fosse mais feliz,
talvez estivesse apenas 
menos cansado.
Foi quando comecei a suspeitar
que o estar-cansado dormia
no mesmo quarto do estar-infeliz.

Não fossem sempre de mais
os cansados e infelizes
os infelizes e cansados,
e seria possível, 
com o alcatrão de tanta sombra,
construir uma estrada
para o amanhecer.

As asas da escuridão
não saberiam fechar em si
a nossa alegria de imaginar 
um dia luminoso 
que a tudo chegasse.

II
Com toda esta prosa,
deixei-me apanhar na fotografia:
atrás de mim a melancolia, 
à esquerda o cansaço
à direita um vulto 
desfocado que nunca vi.

III
Trocaria bem este poema 
por um raminho de margaridas.


Lídia Borges