Há, agora, na bruma dos dias
uma hora certa de ser mais feliz.
É a hora de te ver, amor.
Chegas num chegar só rosto.
Com o sorriso é que me abraças
e com o dizer “mãe” é que me beijas.
Faço um colo com palavras
tecidas a linho e renda
e embalo-te outra vez
como se fosses criança, ainda.
Surpreendentemente, agora
és tu quem conta as histórias.
Falas da neve, dos veados no quintal,
da luz quebrada que tudo aquieta,
do frio, do gato que te seguiu até casa
para ocupar, ainda que por um só dia,
um lugar vago no sofá.
E seria tudo mais perto da perfeição,
não fosse existir,
entre a tua voz e a minha atenção,
a plasticidade deste ecrã
a paralisar-me os dedos
quando, num inadvertido gesto,
procuro arrumar-te os cabelos.
(para ti, flor)
Lídia Borges
