foto: Carlos Catalino
Não sei se havia pombas
brancas
no pombal da minha infância.
Havia pombas marron, azuladas,
cinzentas,
caudas riscadas a negro,
pescoços esverdeados,
umas mais claras, outras
mais escuras.
Seus voos atravessavam, alegremente,
o céu dos meus olhos de
criança.
Eu gostava das pombas.
Nesse tempo ninguém as
dissera ainda
"ratos da cidade", animais
sinantrópicos.
Eram apenas e só, pombas, e eu
gostava de pombas.
As brancas haveriam de
aparecer-me mais tarde,
no início de cada janeiro.
Chamavam-lhes de Paz.
Vinham cheias de uma divindade nívea, sagrada.
Mas, a persegui-las, caçadores
furtivos, furiosos
atiravam em todas as direções.
atiravam em todas as direções.
Das pombas brancas restam
penas.
Dizem os caçadores de coração
negro
que para alcançar a paz é urgente matar a Paz.
Pensando melhor...
Não, não creio que tenha havido pombas
brancas
no pombal da minha infância.
Não me lembro de quem se
dedicasse
com tamanho empenho a atirar
às pombas.
Lídia Borges
