domingo, 5 de janeiro de 2020

Pombas


foto: Carlos Catalino

Não sei se havia pombas brancas
no pombal da minha infância.

Havia pombas marron, azuladas, cinzentas,
caudas riscadas a negro, pescoços esverdeados,
umas mais claras, outras mais escuras.
Seus voos atravessavam, alegremente,
o céu dos meus olhos de criança.
Eu gostava das pombas.

Nesse tempo ninguém as dissera ainda
"ratos da cidade", animais sinantrópicos.
Eram apenas e só, pombas, e eu gostava de pombas.

As brancas haveriam de aparecer-me mais tarde,
no início de cada janeiro. Chamavam-lhes de Paz.
Vinham cheias de uma divindade nívea, sagrada.
Mas, a persegui-las, caçadores furtivos, furiosos
atiravam em todas as direções. 

Das pombas brancas restam penas.
Dizem os caçadores de coração negro
que para alcançar a paz é urgente matar a Paz.

Pensando melhor...
Não, não creio que tenha havido pombas brancas
no pombal da minha infância.
Não me lembro de quem se dedicasse
com tamanho empenho a atirar às pombas.

Lídia Borges