quarta-feira, 25 de março de 2020

Era só o que eu queria


“A Ponte Japonesa” 
Inverno de 1899 - Claude Monet.

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

I


Até há pouco era bom ser sozinho,
estar em casa sozinho
mesmo não estando sozinho.
Sabia como fazer para estar sozinho:
um recanto onde a luz não magoasse,
um jazz miúdo para recostar a cabeça
Um bloco de notas, um lápis…

Quando escrevo, esqueço-me... 
mesmo precisando de me lembrar.
Não há como chegar completo ao presente
sem passar pelo passado.
O pior, o pior agora é saber como ir ao futuro.
Mas Havemos de ir ao futuro. 
assim nos diz Filipa Leal num poema.
E eu acredito. Eu acredito,

Acontece que
nesta primavera sem marços, sem nardos
as escritas molestam-me
e as leituras ardem-me nos olhos
como as lágrimas artificiais
a que sou alérgico.


O que eu mais queria 
nesta primavera sem marços nem nardos 
era colher com as minhas mãos
os trinados atabalhoados
que esses pássaros
aí fora deixam nos limoeiros.

O que eu mais queria era abraçar
as pessoas todas da minha rua
(onde estarão as pessoas todas da minha rua?)

O que eu mais queria era atravessar, 
o lago do Bom Jesus do Monte
num barco que não fosse de papel,
tranquilamente


(Ainda haverá barcos no lago do Bom Jesus?)
O barquinho a remos
a deslizar debaixo das pontes 
revestidas de verdura,
tão ou mais formosas
que a ponte japonesa de Monet.


O que eu mais queria era trazer de lá
os bolsos repletos de nenúfares e rãs
e verdes e azuis
e pintar,
amanhã, já amanhã,
uma primavera para o futuro
aonde havemos de ir.


Lídia Borges