quarta-feira, 8 de abril de 2020

"Coisas"


Cayetano Arques
 (Pintor espanhol contemporâneo)



Leio "coisas".
Algumas delas encantam-me,
passeiam por dentro de mim
como se fosse meu peito a sua casa,
meu coração o seu leito.
Outras deixam-me indiferente,
em nada me são pertença,
não me tocam num só fio de cabelo
mesmo que desalinhado.

Mas há algumas dessas "coisas"
que me deixam inquieta.
São as que falam dos meus poemas
sem mesmo os terem lido
por deles saberem apenas distâncias.
Insinuam que tenho a mania
de meter sinceridade e sentimentos
onde só cabem memória e fingimento.

Dizem que são maus todos os poemas "sobre"
a menos que seja o "sobre" seguido do "nada".
Caminho pela estrada do pensamento
mas na primeira curva
tomo o descaminho para a imaginação...
Sim, entendi.
Julgo ter entendido.

Mas que fiquem desde já a saber, os sábios
que se algum poema vier pelo seu próprio pé
falar-me sinceramente do amor
ou da morte... ou do tempo,
pois que terei eu a ver com isso?

Escrevê-lo-ei com todo o sentimento.


Lídia Borges