Sinto-me, hoje, preguiçosa. Desde que a nova maleita chegou, tenho a estranha sensação de ter sido retirada à força do meu
corpo e posta por aí, a marear, entre vírus, como num jogo de computador. Há
vírus por todos os lados que posso apanhar com as mãos, posso pisar, posso inspirar,
expirar, posso ser apanhada, posso transportar, transmitir, posso morrer
(isso eu já sabia), posso matar, (isto eu não sabia).
Na verdade, não tinha
ainda pensado muito nisto tudo porque, meio sonâmbula, estava a viver “um dia
de cada vez”, como se costuma dizer aos condenados. Compreendi, logo à partida, que viver por junto era agora ambição absolutamente
desmedida. E nunca me disseram, até hoje, que sou ambiciosa. E quando mo disserem, juro que vou ficar surpreendida. Bem, ontem tive um rebate de consciência, só ontem percebi o que tinha
acontecido ao mundo, enquanto a maioria de nós ficou confinada em casa, a ouvir
notícias, números, gráficos, que bem poderiam pertencer a um mundo imaginário criado
com o único propósito de demonstrar a existência inegável do inferno.
Ontem saí. A máscara, as máscaras incomodam-me. Já me incomodavam antes, mas não era obrigada a usá-las, agora
sou. E todos os que me rodeiam também. Nunca o carnaval me foi mais burlescamente arrepiante. Já o era antes, mas durava um dia, dois dias que eu embrulhava nas dobras frias de fevereiro. Era pouco tempo. Eu
aguentava. Mas agora… Não pise essa linha; não, não, não se sente aí; pediu
senha on-line?; não se aproxime; os documentos? Envie por e-mail; a sua consulta
foi remarcada; não entre. Vai ser abordado por alguém. E… faça-nos um favor: proteja-se, sim?… respondo a
tudo com um obrigada! Estou sempre a dizer, obrigada e fico sempre meio comovida
com o “proteja-se”. O resto da comoção desaba quando acrescento, por minha conta –
“e proteja os outros”.
Quando chego ao carro, retiro a máscara, tocando apenas nos elásticos. Fecho-a num pequeno saco, ali posto para o efeito, desinfecto as mãos e pergunto-me - mas o que é
isto? Bati com a cabeça ou meteram-me dentro de um filme de ficção científica?
Ainda assim, e já que estava na rua, esse território agora minado, que devemos evitar, aproveitei também para pôr ordem no cabelo. Tinha ligado com antecedência a fazer marcação, atribuíram-me uma hora de atendimento que cumpri rigorosamente.
Aguentei a máscara, (outra) com dificuldade, outra vez. Conversei com a cliente que já lá estava (duas
pessoas no máximo). Era alguém que nitidamente precisava de falar sobre esta nova forma de viver. Assenti e fui respondendo à chuva de frases, mais declarativas do que interrogativas, sem saber quem ela era. Quando, cabelo cortado, me dirigia para a saída, exclamou, como se tivesse feito uma grande descoberta: ah, agora é que eu estou a
ver!... És a Olívia? Sim, sim, confirmei, sem saber a quem o confirmava. Sim, sou mesmo, e cada vez mais a “olhar os lírios do campo”, com as mãos bem desinfetadas,
pousadas no regaço.
Sinto-me
preguiçosa! Ou será triste?
Neste preciso momento o sol lá fora
esboçou um sorriso amarelo. Ignoro-o! Detesto provocações.
Lídia Borges
