sábado, 27 de junho de 2020

Penumbra




É belo estarmos aqui
nesta tarde. Eu e uma mão cheia de palavras dóceis
aconchegadas na penumbra
deste junho que não quer clarear.

Seria belo voltar a acreditar,
habitar um chão de levantados,
sem transportar dentro do peito
ofensas nem medos nem despojos nem vaidades.
Voltar ao rumo novo das cidades
aos cheiros da terra, enfraquecidos.   

E nas paisagens dos sonhos ofendidos
quebrar minha lança contra os moinhos
e abarcar a terra toda de meus infantes caminhos.

Agora que tudo compreendo,
em vão,
é que me sei árvore depois dos frutos,
e dos ninhos, e do verão.
É que me sei música
na letra sumida de uma canção
é que me sei fome 
é que me sei pão.

De um ramo ao alto da tarde
pende vacilante um coração.
Pudesse eu serenar o vento
que perturba a minha solidão.

Lídia Borges


(imagem: Duy Huynh)