É belo estarmos aqui
nesta
tarde. Eu e uma mão cheia de palavras dóceis
aconchegadas na penumbra
deste junho que não quer clarear.
Seria belo voltar a acreditar,
habitar um chão de levantados,
sem transportar dentro do peito
ofensas nem medos nem despojos nem vaidades.
Voltar ao rumo novo das cidades
aos cheiros da terra, enfraquecidos.
E nas paisagens dos sonhos ofendidos
quebrar minha lança contra os moinhos
e abarcar a terra toda de meus infantes caminhos.
Agora que tudo compreendo,
em vão,
é que me sei árvore depois dos frutos,
e dos ninhos, e do verão.
É que me sei música
na letra sumida de uma canção
é que me sei fome
é que me sei pão.
é que me sei pão.
De um ramo ao alto da tarde
pende vacilante um coração.
Pudesse eu serenar o vento
que perturba a minha solidão.
Lídia Borges
(imagem: Duy Huynh)
