Escolhi hoje este caderno
de papel pardo,
a imitar o papiro.
Sinto-me agora muito mais antiga.
Caem-me da pena…
[ia escrever “caneta”,
mas é pardo o papel
que hoje escolhi,
a imitar o papiro]…
Caem-me da pena
uns parcos versos brancos
quando deveriam
dar um soneto Shakespeariano,
depois de bem medidos
os alexandrinos.
Versos, catorze,
doze sílabas arcaicas,
tudo em vislumbre de perfeição,
celebrado ardentemente
pelos poetologistas
de todos os tempos.
Acontece que
com as últimas arrumações cá em casa,
não sei onde guardei a caixa da costura.
Não tenho, portanto, como medir palavras.
Assim, vai mesmo a olho, o que quero dizer:
espero por ti
amanhã,
numa folha de papel velino
onde lembraremos,
em arrebatamento de corpo e espírito,
[conforme o papel exige],
os momentos que nos hão de acontecer
à conta da Poesia.
Lídia Borges
(foto minha, hoje)
