Há muito tempo que troquei as caminhadas pela
bicicleta de pedalar sem sair do lugar, o que é, só por si, deveras frustrante.
Para mim, uma frustração agravada, pois que me lembra invariavelmente o hamster
que eu “assassinei”. Apareceu de olhos muito abertos, muito luzidios,
agarradinho à roda de plástico, a brilhar de tão lavadinha, após uma
cuidada limpeza que eu fizera às instalações do pequeno roedor, (animal de
estimação da Rita, quando criança) com um desinfetante “muito bom”.
A dita bicicleta tem a vantagem (ou a desvantagem) de não me fazer sair de
casa para cumprir o exercício a que estou “obrigada”. Mas, acontece que o sol
amanheceu hoje tão limpinho, tão brilhante que, depois de apanhar as folhas do
jardim que a magnólia, todos os dias, nesta época, se encarrega de espalhar na
relva em doses avantajadas, e, depois de dar um jeito no reflexo da árvore na
água de uma das pinturas em curso, reparei que a atenção me fugia lá para fora
com uma insistência invulgar. Então, disse eu: - Vou caminhar. Venho já.
E fui. Cumprimentei de longe a dona Cecília que estava a colher botões de rosas
no jardim. Conversamos um pouquinho – Bom dia, como está, como estão
todos? Pois, esta “coisa” que não nos larga. Mais adiante, o Sr. Pinto
vinha de colocar os sacos do lixo nos contentores. Parou à distância máxima
recomendada: Como está? E a mãezinha? E as meninas? Temos de ter
cuidado. Isto é como uma guerra, não se pode facilitar... Foi
quando dei conta de que não tinha a “bendita” da máscara. Voltei para trás,
abri a porta, peguei numa azul clarinha com passarinhos. Agora sim, aí vou eu.
Com estas e com outras, o sol caprichoso escondera-se atrás de uma
nuvenzinha, ainda menina, como a prevenir que não estava para risos muito
prolongados. Subi o fecho do casaco. Não me cruzei com mais ninguém. No mesmo
percurso onde, anteriormente, pessoas em grupos ou sozinhas ou acompanhadas
pelos seus animais de estimação enchiam estes passeios de caminhadas, de
corridas, de pedaladas, de vozes alegres, não vislumbrei vivalma. A menos de
500m de casa o “mundo” parecia-me outro. Esvaziara-se por completo. Um silêncio
comprido e cinzento alongava-se à minha frente e nem o colorido das árvores o
calava. As nuvens vieram depressa, umas na peugada das outras, e enodoaram o
azul todo. Vou embora – disse eu. E vim.

