As bétulas exibiam ainda todo o seu o verde intacto, mas, por que não antecipar
o Natal que, (adivinhava-se), não poderíamos ter, como não tivemos, na primavera, a programada viagem a Amesterdão, onde a família se reuniria? O
futuro parecia já tão carregado que adiar por mais tempo este encontro seria
tornar a espera insuportável. Deu-se início à odisseia, todas as perguntas, poucas as resposta. Quem se desloca e quem recebe? Como conciliar voos, horários, normas
Covid, exigências de três países diferentes, normas europeias e espaço
Schengen... "Vamos vendo, vamos tentando". Desde os finais de agosto que
procurávamos um cantinho onde coubesse o almejado encontro. Marcações,
cancelamentos, voos de ligação com horas intermináveis de espera, alterações de
regras de última hora. Uma autêntica prova de resiliência! Peguei nas malas e voltei a
arrumá-las, algumas vezes, até que, por fim, aconteceu. Boletins de saúde
preenchidos, declaração assinada por um familiar no destino para se
responsabilizar pela nossa quarentena, disponibilidade para fazer o teste
Covid, no aeroporto de Oslo, à chegada. Tudo muito difícil, humilhante até, não fosse a ameaça aquilo que se sabe. Tudo prontíssimo!
A quarentena, em Fredrikstad, foi uma festa feita de abraços e de muitas conversas adiadas, passeios nas redondezas, tirando proveito de haver, nas traseiras da casa, um acesso direto à floresta. Saídas curtas, sem máscara, (que as não usam por lá ainda, ao ar livre), curtos mas revigorantes, inesquecíveis. "Mamã, mamã... os pássaros não têm comida!" As bétulas a exibirem todo o esplendor do colorido outonal.
Depois… o neto. Dois anos de um neto a crescer. Ao longe. Afinal os avós são "de sério" e não aquelas pessoas no ecrã, só cara, sem corpo nem pernas", deve ter cogitado o pequenito. As brincadeiras, os jogos, os livros, a músicas e a hilariante surpresa de o ver subir a uma cadeira para melhor acompanhar Carmen.
Foi Natal!
Agora que já estou em casa, há mais de dez dias, parece que o vírus
não deu por mim. Pelo menos, desta vez.
Lídia Borges
(Imagens: Bétulas, óleo sobre tela, de minha autoria, [em
execução], Fredrikstad e aeroporto de Oslo, no regresso.)



