terça-feira, 24 de novembro de 2020

Por estes dias


Vou por estes dias

desatenta e transparente

e não sinto nada 

que seja unicamente meu.

Não sinto nada.

 

Desmaiadas flores

para a palavra, 

longínqua

como um barco na penumbra.

 

Não vi de que noite

de que cais

de que sonho parado

o barco partiu

para as vagas medonhas 

deste mar.

 

Uma corda invisível

ata a fala ao silêncio,

um nó de marinheiro

que na garganta cresce.

 

E estes olhos meus

enamorados de versos

continuam

a rasgar buracos na escuridão

à procura da alba

de um dia por nascer.

 

 

Lídia Borges


(Pintura: Anne Packard)