Vou por estes dias
desatenta e transparente
e não sinto nada
que seja unicamente meu.
Não sinto nada.
Desmaiadas flores
para a palavra,
longínqua
como um barco na penumbra.
Não vi de que noite
de que cais
de que sonho parado
o barco partiu
para as vagas medonhas
deste mar.
Uma corda invisível
ata a fala ao silêncio,
um nó de marinheiro
que na garganta cresce.
E estes olhos meus
enamorados de versos
continuam
a rasgar buracos na escuridão
à procura da alba
de um dia por nascer.
Lídia Borges
(Pintura: Anne Packard)
