I
Repousa-se mais agora. Demais.
Não apenas porque as noites perduram,
mas porque são rarefeitos
os dias. Renda de bilro
em pontos escassos e fartos
furos.
II
Na manta de xadrez espalham-se
os livros
que pego e largo, que abro e
fecho,
da direita para a esquerda e
vice-versa
sem que a atenção se lhes
entregue,
sem que o cérebro acuse a
dádiva extra de oxigénio,
aberta, de par em par, a
ventã do pensamento.
III
Deixaram-se de deslumbramentos
as ortografias palavrosas e o
contrário delas,
atualíssimas, ligeiríssimas,
moderníssimas,
por entre renques de risos
tolos e altivos cardos.
Leia-se a vida, o coração,
cada vez mais lentos, mais indecifráveis.
A cada passo o torpor das
palavras
a indiciar o silêncio absoluto
dos peixes.
Há ainda a Poesia, é certo,
uma corola a desabrochar
hora a hora no âmago das coisas do
mundo.
As mãos que a moldam com
barro e água,
que a cultivam como tesouro
em casebres de vento
ou bilhas de água nas dunas desérticas,
substância dos sonhos mais puros.
Há a Poesia. Espera-nos num
qualquer canto
inopinado, súbito como costume
de infância,
avassalador.
Na figueira a esta hora, por
exemplo,
quando os melros poisam
no escurecimento dos ramos,
seu alegre luto lustroso... e ruidoso,
ali está ela,
como se festiva a rua, minada
de invernos.
Lídia Borges
