segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Memória do Futuro

(pintura: Anne Packard)
 

I

Repousa-se mais agora. Demais.

Não apenas porque as noites perduram,

mas porque são rarefeitos

os dias. Renda de bilro

em pontos escassos e fartos furos.

 

II

Na manta de xadrez espalham-se os livros

que pego e largo, que abro e fecho,

da direita para a esquerda e vice-versa

sem que a atenção se lhes entregue,

sem que o cérebro acuse a dádiva extra de oxigénio,

aberta, de par em par, a ventã do pensamento.

 

III

Deixaram-se de deslumbramentos

as ortografias palavrosas e o contrário delas,

atualíssimas, ligeiríssimas, moderníssimas,

por entre renques de risos tolos e altivos cardos.

Leia-se a vida, o coração,

cada vez mais lentos, mais indecifráveis.

A cada passo o torpor das palavras

a indiciar o silêncio absoluto dos peixes.

 

 IV

Há ainda a Poesia, é certo,

uma corola a desabrochar

hora a hora no âmago das coisas do mundo.

As mãos que a moldam com barro e água,

que a cultivam como tesouro

em casebres de vento

ou bilhas de água nas dunas desérticas,

substância dos sonhos mais puros.

Há a Poesia. Espera-nos num qualquer canto

inopinado, súbito como costume de infância,

avassalador.

Na figueira a esta hora, por exemplo,

quando os melros poisam

no escurecimento dos ramos,

seu alegre luto lustroso... e ruidoso,

ali está ela,

como se festiva a rua, minada de invernos.


Lídia Borges