segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Bicho da madeira

I

Às vezes, a noite vem inundada de ruídos

que não contam com entrada 

no teu dicionário,

distintos em tudo dos da casa antiga

cujo soalho crepitava no silêncio.

É o bicho da madeira – diziam –

Para mim era a barata de Kafka

[embora não a soubesse, ainda].

Vinha perfurar a noite,

tocar todas as arestas do escuro

com suas patas repelentes.

 

II

 

Às vezes, não sabes por que deixou de correr

a água à margem sombrosa dos salgueiros.

Tornou-se claramente mais árduo

levar o barco a rasgar essas águas estagnadas

tomadas de hidrófitos flutuantes

que nem me deixam cair no sono

nem emergir dele.


Lídia Borges