domingo, 21 de fevereiro de 2021

Sonhos


 

I

As crianças germinam dolentemente

no útero fragoso do tempo.

Crescem inclinadas para a luz,

sedentas begónias nos parapeitos de janelas

despropositadas.

 

Esperam quietas à entrada da noite

para que as não vejamos  chegar 

ao átrio da desolação.

Sobem depois pelos corpos sonâmbulos

que deixamos pousados na berma do sono

e vão aninhar-se no âmago do coração.


II


Aí iluminam-se prodigiosamente.

Fremem em florações de materno fôlego,

Alegram-se. Inventam  constelações. Pulam

de estrela em estrela sem tropeçar.

E riem e dançam e deixam mil pegadas brilhantes

no solo infecundo dos nossos sonhos perturbados.


III

Quando a alba se anuncia

candelabro ao alto da noite

as crianças refugiam-se, confusas,

no espaço vago do vento

onde nossos braços cansados, 

não desistem de alcançá-las.


Lídia Borges