I
As crianças
germinam dolentemente
no útero fragoso do tempo.
Crescem inclinadas
para a luz,
sedentas begónias nos parapeitos de janelas
despropositadas.
Esperam quietas
à entrada da noite
para que as não vejamos chegar
ao átrio da desolação.
Sobem depois pelos
corpos sonâmbulos
que deixamos pousados na berma do sono
e vão
aninhar-se no âmago do coração.
II
Aí iluminam-se prodigiosamente.
Fremem em florações
de materno fôlego,
Alegram-se. Inventam constelações. Pulam
de estrela em
estrela sem tropeçar.
E riem e dançam e deixam
mil pegadas brilhantes
no solo infecundo dos nossos sonhos perturbados.
III
Quando a alba se
anuncia
candelabro ao alto da noite
as crianças refugiam-se, confusas,
no espaço vago do vento
onde nossos braços cansados,
não desistem de alcançá-las.
Lídia Borges
