domingo, 14 de março de 2021

Naturalmente

 

Sim, naturalmente,

há o repisado solo dos dias.

E tudo quanto nele é urgência

e mecanização e tirania e defeito.

Os dias… claro.

A insubordinação das horas, naturalmente.

 

Dêem-me um momento só

para que possa escutar com o corpo todo

o admirável som desta flauta.

Shiiiu… ouvem?

 

São os braços da ameixoeira e as abelhas, ouvem?

Oscilam como se dançassem. É uma alegria juvenil

que, fervorosa, brota rente ao espanto.

 

Os dias, os dias… eu sei.

Não me demorarei aqui, 

no exterior dos dias. 

Não me há de conceder 

muito mais tempo

esta Língua materna

tão rara, tão apropriada

às conversas secretas

com os deuses.


Lídia Borges

(foto minha, tm., hoje)