Sim, naturalmente,
há o repisado solo dos dias.
E tudo quanto nele é urgência
e mecanização e tirania e defeito.
Os dias… claro.
A insubordinação das horas, naturalmente.
Dêem-me um momento só
para que possa escutar com o corpo todo
o admirável som desta flauta.
Shiiiu… ouvem?
São os braços da ameixoeira e as abelhas, ouvem?
Oscilam como se dançassem. É uma alegria juvenil
que, fervorosa, brota rente ao espanto.
Os dias, os dias… eu sei.
Não me demorarei aqui,
no exterior dos dias.
Não me há de conceder
muito mais tempo
esta Língua materna
tão rara, tão apropriada
às conversas secretas
com os deuses.
Lídia Borges
(foto minha, tm., hoje)
