domingo, 2 de maio de 2021

Maio

 


É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.


Tomas Tranströmer 

(in Pássaros Matinais) 


O poema está concluído.

A oração orada, a libertação 

a serenar, vértebra a vértebra, 

o frenesim nos domínios da fala.

A coluna vertebral, pouco a pouco

toma consciência da postura vertical.

 

Sou agora expulsa da página

E levo licença carimbada para habitar o dia,

os versos fervorando ainda no forro dos bolsos.

 

Estas rosas fugazes, belas

são, decerto, o rosto da Poesia.

Por agora,

a vida tem-me e talvez eu a tenha também

nos sóis nas luas nas miragens de água

em que me banho e me seco.

Talvez a tenha. É Maio, não vês?

 

A Vida! Sei que depois de bater com a porta,

de negar-me a entrada nos condomínios do real,

acabará por devolver-me, esvaída e perplexa,

ao lugar mais remoto do poema.

 

 

Lídia Borges


(imagem: Pinterest, s/ ind. autoria)