É fantástico
sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Tomas Tranströmer
(in Pássaros Matinais)
O poema está concluído.
A oração orada, a libertação
a serenar, vértebra a vértebra,
o frenesim nos domínios da fala.
A coluna vertebral, pouco a pouco
toma consciência da postura vertical.
Sou agora expulsa da página
E levo licença carimbada para habitar o dia,
os versos fervorando ainda no forro dos bolsos.
Estas rosas fugazes, belas
são, decerto, o rosto da Poesia.
Por agora,
a vida tem-me e talvez eu a tenha também
nos sóis nas luas nas miragens de água
em que me banho e me seco.
Talvez a tenha. É Maio, não vês?
A Vida! Sei que depois de bater com a porta,
de negar-me a entrada nos condomínios do real,
acabará por devolver-me, esvaída e perplexa,
ao lugar mais remoto do poema.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest, s/ ind. autoria)
