sábado, 31 de julho de 2021

Música (I)

 

Comecei a ouvi-la ao entrar numa das principais artérias do centro da cidade. O som vinha chegando, lento, água de nascente a abeirar-se da pele. Inundou todos os poros e em poucos instantes já me tinha tomado o coração. Era Brahms?! A música crescia à medida que eu avançava, rua abaixo.

Havia um grupo compacto de pessoas a rodear os músicos. Eram 4 jovens, bem jovens, (três violinos e uma guitarra clássica). Reparei em alguns olhos húmidos por cima das máscaras. Quando o excerto da peça terminou, houve aplausos e a maior parte das pessoas, antes de prosseguir o seu caminho, debruçava-se, em vénia, para deixar cair umas moedas ou uma ou outra nota de baixo valor, na caixa da guitarra aberta no chão. Aproximei-me, quando ficou menos gente. Pude então ler num pequeno cartaz, escrito à mão: “ajude-nos a estudar”.

Eram, desta vez, tão alegres e vivas as notas largadas no ar, (um pouquinho de Allegro/Vivaldi) que já nenhum transeunte conseguia evitar a suspensão da marcha. E ali, num instante, se juntou outro grupo, disposto a deixar-se comover. Também eu não pude escapar à comoção. Não apenas pelo forte sopapo da inscrição no cartaz que me acertou em cheio no peito, (à conta deste maldito e inexplicável sentimento de culpa pelos males do mundo que sempre me agride), mas também pela perceção clara de que a boa música não tem filiações de ordem política, religiosa, racial, social ou de outra qualquer ordem. A boa música é de todos, para todos, pode descer à rua, sempre que queira. Ela agrada ao povo. Não consigo perceber por que, ao povo, servem tanta palha. Como se não houvesse dentes nem apetite para alimento mais nutritivo.

Este episódio trouxe-me à lembrança uma história que o meu pai contava: um dia, já tarde, com algumas horas de viagem cumpridas, mas ainda longe de casa, de barriga a dar horas, resolveu parar numa aldeia, a caminho, e entrar numa tasca para aliviar a bexiga e reconfortar o estômago. Havia alguns homens a beber e a discutir futebol acaloradamente, no balcão, outros, nas mesas, jogavam cartas ou dominó, pontos para cá, pontos para lá. As vozes em conversas desencontradas produziam um ruído de fundo grande, como é próprio destes lugares típicos, muito frequentados, à época, por trabalhadores que no final do dia de trabalho, procuravam afogar nos copos mágoas, desencantos e cansaços. A um canto, bem acima do nível das cabeças, resmungava um televisor, a preto e branco, ao qual ninguém parecia atento.  

“Quando o pianista começou a tocar - contava meu pai - todos os que ali estavam foram erguendo a cabeça para o televisor e, pouco a pouco, foram-se calando. De um momento para o outro, como por milagre, era apenas a música que se ouvia percorrer o teto, as paredes, o balcão, as mesas. E aquele lugar mal iluminado, sujo, com odor a vinho, sempre a jorrar do pipo, a bagaço, a pasteis de bacalhau, pataniscas,  iscas de fígado, de repente, enchera-se de pasmo e maravilha."

Não sei porque nunca esqueci esta e outras histórias de meu pai. Lembro-me de imaginar, vezes sem conta, a cena como num filme antigo. No pequeno ecrã um piano e o que dele brotava a reclamar o silêncio em redor, a calar todas as vozes. Uma a uma a render-se ao chamamento da música, como se dádiva dos céus para conforto dos homens. 


Lídia Borges