Assim, abrir esta página,
é uma absoluta [des]necessidade.
Escrever não é mais estar irmanado com o lugar das coisas normais da vida, embater violentamente, aqui e ali, com o braço nos vértices das notícias como no canto da cómoda. O choque elétrico que, a partir do cotovelo, se estende pelo corpo, pode ser até doloroso, mas sabemo-lo, à partida, breve e sofrível.
Escrever é agora outra coisa: ler, com óculos de ver ao perto, o que veem
os demais e inquietar-se com os sistemáticos desacertos nas maquetas dos olhares quando sobrepostas.
Escrever é agora observar de um paralelo outro os lugares da dor e do
desespero tragicamente repetidos. Intermináveis misérias, imensurável sofrimento…
E eu sem saber ainda em que difere o desespero das mulheres e crianças de
Cabul das mulheres e crianças de Moçambique ou de outros pontos da Terra,
abertos em ferida que nunca deixa de sangrar. E tudo, em torno, nos quer
fazer crer que não há remédio para a Desumanização, que esta pode ter outras designações menos penosas, dependendo da posição estratégica do designador. Como se pudesse cada desastre humanitário ser comparável ao movimento do braço que embate nos vértices das notícias como no canto da cómoda....o choque a
partir do cotovelo…breve e sofrível...
Não estou a saber como voltar.
Lídia Borges
