Não é fácil limpar o pó aos livros. É tarefa para um dia inteiro, às vezes, vários dias. Não porque a minha biblioteca seja grande, nada disso, é uma bibliotecazinha de “andar por casa”, com meia dúzia de prateleiras, (mais algumas, ora, com licença, deixe-me ver: quatro e quatro… oito, mais quatro… mais…), Bem, não interessa. É pequena, mas consome-me tempo sem fim. Começo pelas prateleiras mais altas. Há que pegar no escadote, primeiro, depois é preciso retirar os livros, pela ordem em que se encontram e colocá-los em espera no tampo do armário, sob o teto, para poder limpar toda a prateleira. Quando esta, coberta por uma fina camada de neblina, se vê percorrida pelo pano humedecido em óleo de cedro, instantânea e alegremente, muda de cor, brilha. Hummm!… gosto dela assim.
Até aqui tudo bastante rápido. O pior é quando me ponho a espanar os livros, antes de os
devolver aos seus aposentos. Alguns são como as maçãs do topo da macieira, em
tempo de colheitas, aquelas que, não estando à mão, têm sempre mais tempo para
se fazerem rosadas e doces. Empoleirada no escadote, (lembro-me lá eu de
descer), a prateleira que brilha, a servir de secretária, fico a espiá-los, um
a um, a procurar na memória alguma ponta solta que me ligue a um ou a outro, a tentar
descobrir o que fui deixando para trás porque, a dada altura, mesmo que não
queiramos, muito do que nos foi bússola e mapa vai ficando para trás.
Metade do dia voou. Apercebo-me que, a brilhar, duas prateleiras, apenas. Deste modo, não admira que o pó se acumule, pois quando chego à última, já a primeira perdeu o ar jovial e desempoeirado. E é isto. Nunca tenho tempo para nada.

