Sigo pela estrada estreita a dividir os campos, a luz desce para o fim do dia, tranquilamente.
Acende-se nas clareiras que, após uma curva mais apertada, se abrem, libertas de sombras, para logo se
fecharem, mais adiante sob as copas dos carvalhos e dos castanheiros ainda frondosas.
Aqui e ali, o solo reveste-se de ouriços, um original tapete que o vento impetuoso das
últimas horas entendeu. Lustrosos frutos esperam quem por ali passe e se
disponha a arrancá-los ao leito de espinhos.
As vinhas, depois das vindimadas, deixam nas parras a explicação completa das
cores no outono, uma paleta diversa onde os dias se banham e brilham e rescendem.
A romãzeira, na berma desta estrada sem bermas, obriga-me a abrandar, a olhar outra vez, a parar para admirar mais de perto a perfeição do fruto. Romã… lembro-me como me fascinara a palavra, em criança, como ainda gosto de a pronunciar. A palavra mágica na página da letra R, no livro da primeira classe onde primeiro a encontrei. Raras são as palavras que, como ela, se ajustam tão intimamente à “coisa” nomeada. Quando pronunciámos – romã - não é apenas o soletrar de duas sílabas vulgares o que sentimos roçar-nos os lábios; há nesse soletrar, a dignidade de um fruto distinto, desigual e, como tal, coroado; ao tato, prende-se a leve rugosidade da casca; no paladar é o sabor doce de mil sementes rubras e transparentes que perdura e, em dias de maior sensibilidade, ficam na alma, a desfilar, episódios do tempo das romãs de outros tempos.
Imprevisível (até que ponto?) esta miragem de perfeição aqui no meio do nada: um ramo esplendoroso
sobre o muro do qual pende singela uma romã. Não precisei de fechar os olhos para
a ver. Se os fechei foi só agora para procurar palavras que a dissessem.
Aquilo que fora uma azenha é agora um lugar para ficar sentado sem nenhum livro
a ocupar as mãos ou o regaço, sentado apenas a observar a mó erguida ao canto da sala, a imaginar o seu labor impulsionado pela água da cascata, hora após hora, ano após ano, a triturar os grãos que
seriam depois o pão da mesa de pobres e ricos. À falta do grão para
transformar em farinha, transformou-se ela em objeto de decoração. Não fica mal ali, altiva, segura, acompanhada de milheiros secos, de abóboras e girassóis, mas nela, tudo é passado e nostalgia que eu bem sei. Como em mim que não tenho sequer o dom da imperturbabilidade da pedra.
Embalada pelo som cantante e constante das águas, barrentas, hoje, a darem mostra das fortes chuvadas da última noite, acolho ecos de outrora. Como me dói a falta das minhas pessoas! Uma friagem repentina vinha já disposta a apoderar-se-me do corpo, mas chegou primeiro a sopa, cheirosa, quente a abrir o jantar, servido a tempo e a preceito. Sobe-me à lembrança o arroz de favas do Eça e apetece-me, urgentemente, um livro e uma manta para o serão. E Tormes é hoje, aqui.
Da janela observo o arvoredo lá fora, agora que a noite veio escura como há muito a não via. Denso arvoredo como os
meus pensamentos, densos, à espera de retornarem à fluidez azul de um
verso ou de um bom bocado de prosa.
[...]
Lídia Borges
(imagem: foto minha, tm.)
